
Entre timbre, detalhe e sensação, a Pluma constrói músicas que preferem crescer aos poucos dentro do ouvido.
Pluma parece interessada no momento em que uma música ainda está tentando encontrar a própria forma. Em vez de trabalhar a partir de impacto imediato, a banda constrói arranjos que revelam detalhe, textura e sensação gradualmente, como se o ouvido precisasse de tempo para alcançar tudo o que está acontecendo ali.
Existe precisão técnica no som da Pluma, mas ela raramente aparece como demonstração. Timbres, guitarras, reverbs e camadas funcionam mais como linguagem perceptiva do que como virtuosismo explícito. As músicas não tentam dominar a atenção logo de cara. Preferem reorganizar escuta aos poucos.
Ao longo dos projetos, a banda foi deixando para trás uma relação mais exibicionista com técnica e aproximando o processo de algo mais intuitivo, sinestésico e sensorial. As imperfeições passaram a funcionar como parte da própria temperatura das músicas.
Enquanto se prepara para a 7ª edição do Circuito, que atravessa São Paulo, Campinas, Sorocaba e Limeira entre os dias 28 e 31 de maio, a Pluma continua expandindo esse universo onde sensação importa tanto quanto estrutura.
Na conversa com o deepbeep, Pluma fala sobre timbre, demora, expectativa, processo criativo e sobre por que algumas músicas ainda merecem tempo antes de entregarem tudo.
A playlist “o que ainda fica no ar” ajuda a entender essa lógica de construção gradual. Mk.gee, Beach House, Azymuth, AIR, Japanese Breakfast e New Order aparecem como referências para músicas que continuam crescendo depois que acabam.
Marcelo Nassif, sócio-editor
O som de vocês parece leve na superfície, mas cheio de tensão por baixo. Em que momento perceberam que não precisavam escolher entre delicadeza e estranhamento?
Acho que isso foi algo muito natural desde os primeiros arranjos. O que percebemos, na verdade, foi que a gente curtia isso e que, de certa forma, funcionava. Talvez isso tenha ficado mais claro nos primeiros retornos que tivemos desde que começamos a lançar músicas.
Grande parte das músicas da Pluma parece construída mais por atmosfera do que por explosão. O que vocês procuram primeiro para saber que uma faixa realmente tem vida?
Muitas vezes nos baseamos nas nossas sensações e em como isso conversa com as letras, quase de uma forma sinestésica. Quando a base vem antes da letra e ainda não sabemos exatamente sobre o que vamos falar ou qual será o tema, a busca é por algo que nos inspire. Quando bate, as ideias começam a surgir.
Existe um cuidado técnico muito forte no trabalho de vocês, mas nada soa virtuoso. O que vocês fazem questão de deixar imperfeito?
Na verdade, sinto que nossos primeiros EPs têm bastante uma onda virtuosa, algo que até deixamos um pouco para trás com o tempo. Cada vez mais, as imperfeições vêm das nossas próprias limitações durante a época de cada projeto e também do que queríamos propor em cada momento.
Hoje muita música tenta capturar atenção rápido. O som da Pluma parece confiar mais no tempo. O que vocês acreditam que ainda merece demora?
Cada vez que entramos no estúdio, tentamos olhar para dentro e fazer algo que, em primeiro lugar, a gente curta e se divirta fazendo, ouvindo ou procurando. Acho que o processo artístico merece essa demora e precisa de tempo.
A música de vocês cria uma sensação muito específica de suspensão, quase como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer. O que vocês tentam preservar para não perder essa sensação?
A gente gosta da ideia de quebrar expectativas e brincar com sensações, criar um ambiente dentro da música. Acredito que o cuidado com cada timbre e a vontade de transmitir o que estamos sentindo, não apenas através da letra, mantêm isso.
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Fotos por Maria Cau Levy
Agradecimentos à Francine Ramos pela conexão
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