Marília Pasculli e a cidade como interface

Marília Pasculli em entrevista e playlist para o deepbeep

Entre arte digital, espaço público e arquitetura urbana, Marília Pasculli fala sobre imagem, som, comportamento e sobre como a tecnologia só faz sentido quando deixa de ser o centro da experiência.

Marilia Pasculli trabalha com imagem, mas dificilmente trata tela como superfície neutra. Ao longo dos últimos anos, desenvolveu projetos que transformam a cidade em parte ativa da obra, misturando arte digital, arquitetura, fluxo urbano, som e comportamento coletivo. Em vez de adaptar trabalhos ao espaço, ela parte justamente do contrário: entender como luz, trânsito, clima, geografia e circulação humana podem reorganizar completamente a experiência da imagem. Essa lógica aparece também em Vivacidade: arte, cidade e meio ambiente, mostra que ocupa o Horto Florestal de São Paulo, a partir de 21 de maio, com instalações interativas, obras audiovisuais e experiências generativas, pensadas para aproximar natureza, tecnologia e espaço urbano, sem transformar a tecnologia em um espetáculo vazio. Nesse processo, LED, música, arquitetura e movimento funcionam como parte do mesmo sistema sensorial. Uma tentativa de produzir experiências que interrompam o automatismo da cidade e suspendam, ainda que por alguns minutos, a lógica acelerada da circulação cotidiana. Na conversa com o deepbeep, Marilia fala sobre espaço público, trilha sonora urbana, arte generativa, comportamento coletivo e sobre por que a tecnologia perde força quando vira protagonista demais. A playlist “Entre Tela e Cidade” acompanha esse percurso com músicas que reorganizam a forma como ela observa a paisagem urbana antes mesmo da imagem ocupar o espaço.

Lísias Paiva, sócio-editor

Você trabalha com a cidade como superfície de exibição. Em que momento um espaço deixa de ser cenário e passa a ser parte da obra?
Desde a concepção do projeto, a primeira decisão importante é definir onde a mostra ou instalação será executada. A partir do local, as obras se desenvolvem levando em consideração as relações sociais que acontecem nesse entorno e quais relações queremos provocar, antecedentes históricos e fatores geográficos. Inclusive, o trajeto do sol e da sombra no local é importantíssimo, pois influencia diretamente o tipo de interface, posição e formato da plataforma expositiva.
Talvez o projeto mais evidente de posicionamento geográfico seja o SP_Urban na Praça do Pôr do Sol, com a instalação Miragem (Fernando Velázquez). O LED curvo e de baixa altura ficou posicionado na linha do horizonte, considerando o sol se pondo centralizado com o vídeo e a ampla vista da cidade como parte significativa da instalação, uma vez que a obra reforça aspectos de culto à natureza e rituais ancestrais, evidenciando a relação espaço-tempo e questionando como a experiência artística “estica” ou “encurta” nossa experiência cronológica.

Quando uma imagem entra no espaço público, o som muda completamente a forma como ela é percebida. Que tipo de música altera de fato o comportamento de quem está ali?
Acho que essa é uma relação muito semelhante à trilha sonora de filmes, em que a música se torna uma parte crucial da narrativa visual. Quantas vezes andamos por aí com uma música na cabeça, ou estamos ouvindo uma música e a percepção do nosso entorno se transforma, não é mesmo?
O tipo de música está associado à narrativa das obras. Tivemos obras com trilhas mais dançantes, incentivando as pessoas a se movimentarem, estilo “dancing in the rain”, com guarda-chuvas luminosos como interface em uma garoa digital, agregando as pessoas do entorno pela batida mais upbeat.
Eu particularmente gosto muito das músicas mais melódicas, que provocam um estado quase meditativo. Músicas mais calmas e intensas, com batidas pulsantes e acordes repetitivos que desconectam o transeunte da correria urbana e o transportam para esse universo lúdico da arte digital.

Hoje grande parte da circulação de imagem é mediada por algoritmo. O que você faz para que uma obra não seja reduzida ao que funciona rápido na tela?
Talvez esse seja um grande diferencial da arte digital em espaço público. A interferência espacial fora das limitações geográficas de espaços culturais pré-estabelecidos já provoca a suspensão do hábito em favor da experimentação. Na grande maioria das vezes, eu evito plataformas expositivas em formatos retangulares, similares a TVs ou smartphones, para desassociar a familiaridade da imagem digital do uso de tela pessoal. Adoro plataformas escultóricas em LED, formatos curvos mais orgânicos, principalmente em locais com diálogo com a natureza, como no projeto Vivacidade, e plataformas tridimensionais, sempre levando em consideração o entorno e o propósito. No Mirante 9 de Julho, as plataformas expositivas eram retangulares, mas tinham um espaçamento estratégico, permitindo ao público enxergar o fluxo de carros da avenida, já que o trânsito era um dado em tempo real da game art Balance (Francisco Barreto), tornando a partida mais lenta ou acelerada. No Largo da Batata, a instalação Crossroads (Muti Randolph) foi uma cruz tridimensional de seis metros de altura, com todas as faces revestidas em LED translúcido. O formato fazia referência ao cruzamento de dados, seja de transporte urbano ou fluxos financeiros, criando uma arquitetura sinestésica em que a imagem se fundia com a plataforma, gerando ilusões de fluxo de pessoas e cruzamento de dados intimamente ligados ao tecido e ao ritmo urbano da metrópole.

Seu trabalho envolve tecnologia, mas nunca parece sobre tecnologia. O que você decide não evidenciar para manter a experiência aberta?
Eu decido evidenciar a narrativa, a dimensão humana que nos une, o que nos motiva e desafia nossa existência no mundo, ao invés de como a produção artística pode servir à epopeia da tecnologia. Meu foco é sempre questionar o que a tecnologia pode fazer pela prática artística, e assim a tecnologia é apenas um suporte para a linguagem. A tecnologia fica obsoleta tão rápido que às vezes nem dá tempo de processarmos, como sociedade, seu impacto, absorvermos e refletirmos. É o que tenho percebido com arte generativa e ferramentas de criação em colaboração com IA, por exemplo.

Quando uma obra vai para a cidade, ela passa a ser atravessada por tudo o que você não controla. O que você aceita perder e o que você tenta segurar?
Acho que tudo é negociável. Às vezes é preciso aceitar perder e aprender com isso e, na maioria das vezes, segurar e acreditar que vai dar certo. Tenho muitas histórias de imprevisibilidade. Em 2013, fiz uma instalação interativa em que presumi que o Viaduto Santa Ifigênia seria um local de fluxo durante a Virada Cultural. Implementei um painel de LED em que nuvens de pixels coloridas acompanhavam as pessoas em trânsito, e cada metro próximo ao LED estava programado com uma nota musical, gerando uma música colaborativa que refletisse o deslocamento das pessoas. Mas as pessoas optaram por parar para fazer selfie com a imagem colorida do LED, e a sonoridade ficou péssima, praticamente monotonal e incômoda. Tive que aceitar e desativar essa função.
O que de fato foge do nosso controle, e é uma questão muito maior que uma mera decisão de produção ou presunção de comportamento humano, é o fator climático. Cada vez mais temos chuvas torrenciais com alagamentos atípicos, ventos em velocidade recorde que derrubam instalações e hiperaquecimento urbano. Esse é o maior desafio dos produtores em espaços públicos e festivais. Diante disso, não basta tomar decisões isoladas de projeto. É necessário um esforço social enorme para agir coletivamente e de forma articulada em nível global, com ações que possam desacelerar os efeitos das mudanças climáticas e também regulamentações que considerem os novos cenários de imprevisibilidade climática para proteger obras, pessoas e a própria cidade.

Acompanhe o trabalho de Marília Pasculli
Marília Pasculli no Instagram
Mostra Vivacidade por Marília Pasculli
Mostra PLAY! por Marília Pasculli

Fotos por Bia Ferrer

Agradecimentos à Nathalia Birkholz

Ouça a playlist de Marília Pasculli no seu player preferido

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