
Uma das autoras do Morte Sem Tabu, Cynthia Araújo, fala sobre ausência, memória e o estranho momento em que uma música nunca mais volta a soar da mesma forma.
Cynthia Araújo passa boa parte do tempo escrevendo sobre aquilo que quase todo mundo tenta evitar conversar. Como uma das autoras do Morte Sem Tabu, ela acompanha histórias de perda, despedida e ausência sem transformar a morte em linguagem fria ou técnica. Pelo contrário. Seu trabalho parece interessado justamente no momento em que o luto deixa de ser conceito e volta a ser experiência concreta, confusa, contraditória e profundamente cotidiana. O sucesso do Morte Sem Tabu também diz muito sobre um país que fala diariamente sobre violência e tragédia, mas continua desconfortável diante da conversa íntima sobre finitude. Na música, isso aparece de forma especialmente intensa. Não apenas porque canções ajudam a lembrar de alguém, mas porque às vezes reorganizam completamente a maneira como uma perda continua existindo dentro da memória. Uma voz muda depois da morte. Um verso desloca o sentido. Uma música antiga passa a carregar ausência junto da melodia. Cynthia observa esse fenômeno sem hierarquizar dor. Para ela, chorar a morte de um artista nunca é exagero automático nem sentimentalismo vazio. Muitas vezes, essas perdas funcionam como gatilho coletivo para outros lutos que seguem circulando sem descanso. Na conversa com o deepbeep, Cynthia Araújo fala sobre memória autobiográfica, morte abrupta, músicas que se transformam depois da perda e sobre o estranho momento em que um diálogo vira monólogo porque a pessoa do outro lado já não existe mais. Entre Chico Buarque, Gilberto Gil e Michael Jackson, a playlist “Depois da Ausência” acompanha aquilo que a música continua sustentando mesmo depois do fim.
Lísias Paiva, sócio-editor
Cynthia, tem gente que acha esquisito chorar pela morte de um artista. “Você nem conhecia essa pessoa.” Você que cobre luto profissionalmente, o que acha dessa reação?
Eu nunca acho esquisito sofrer. Luto envolve sentimentos que vêm de muitos lugares diferentes. Algumas pessoas choram por artistas que significavam muito pra elas, mesmo que à distância. Imaginar que a gente nunca mais vai ouvir a mesma música velha naquela voz que nos toca desde sempre, ou que nunca mais vai conhecer uma música nova, ou não vai mais ter a oportunidade de assistir a novas entrevistas de alguém que nos inspira, pode ser suficientemente doloroso pra muita gente.
Pra outras pessoas, o choro por um artista vem carregado de lutos pretéritos. Quando escrevemos sobre a morte da Marília Mendonça para o Morte sem Tabu, lembro que sugeri que colocássemos no título “o país que não aguenta mais perder ninguém”. Ali, o sentimento de perda materializava a morte precoce de uma cantora muito querida e carismática, e mais milhares de perdas enfrentadas num país que já havia enterrado mais de 600 mil pessoas por Covid.
Ano passado, fui pela primeira vez a um velório de pessoa famosa, o do Lô Borges. Eu até o havia conhecido quando nova, mas nunca mais tive contato pessoal. Alguma coisa me empurrou pra lá. Quis estar no mesmo lugar em que haveria várias outras pessoas tristes, fossem elas da família e amigos próximos ou fãs da sua música, como eu.
Mas também não estranho quando uma pessoa faz cara feia pra quem externa luto por um artista, principalmente se ela estiver enfrentando uma perda muito importante e recente, como a morte da mãe, por exemplo. A nossa dor pela perda de alguém à distância tende a diminuir mais rápido. Mas não deixa de ser dor. Não deixa de ser luto. Cada um sente de uma forma.
A música tem uma relação comprovada com a memória autobiográfica, ativa partes do cérebro que guardam quem a gente é. Na prática, o que você observa? A música muda alguma coisa no jeito das pessoas lidarem com a perda?
A música leva as pessoas de volta ao momento de suas vidas em que alguém que perderam ainda existia. É imediato, como perfume: antes de você perceber, a lembrança já retornou e você, mesmo que por um instante, voltou a dividir o mundo com alguém que já se foi. A música também acolhe nos rituais, porque é uma forma de celebrar a vida. Cada vez mais, escuto sobre velórios em que alguém cantou ou músicos profissionais foram contratados. Ouvir uma canção que lembra a pessoa que morreu pode ajudar a processar o luto. No enterro de um tio do meu marido, colocaram o hino do Flamengo pra tocar. Ele não era um torcedor comum, tinha a bandeira desenhada no fundo da piscina de casa. Fazia sentido. E, se faz sentido, vai ajudar a lidar com a perda.
Recentemente, entrevistei Denise Fraga e ela me contou que cantou no enterro da mãe, mesmo sem ter certeza de que aquilo soava apropriado. Cantou uma música que a mãe gostaria que ela cantasse. Tenho uma pequena lista de pessoas que encomendaram minha cantoria caso partam antes de mim. Elas deixam indicada a música, e eu levo isso muito a sério. Mas, por enquanto, só cantei em uma missa de sétimo dia da mãe de uma amiga. “And now, the end is near…” (Nota do editor: a música citada é My Way).
Muita gente descreve certos artistas como guias, quase como mentores, pessoas que ensinaram sobre amor, envelhecimento e identidade. Quando esse tipo de figura morre, o que vai junto?
Acho que vão com elas as novas possibilidades. Ficamos imaginando o que mais ainda poderíamos entender a partir da visão de quem admiramos. A arte é uma ferramenta muito potente de entender o mundo e, na música, isso é muito forte. Você conjuga letra e emoção de um jeito que pode fazer pensar como nunca tinha pensado antes.
Eu reflito muito sobre quanto de mim vem das músicas que ouvi e dos livros que li — e é muito. Há músicas que, quando ouvi pela primeira vez, principalmente músicas do Chico Buarque, realmente mudaram o rumo da minha trajetória. Mesmo que Chico nunca mais componha nada, enquanto ele estiver vivo, essa possibilidade continua existindo. Acho que é isso: o fim da vida dos nossos mestres leva junto possibilidades com as quais ainda podíamos sonhar, mesmo que remotamente.
Existe uma ideia bonita de que o luto é um diálogo que vira monólogo quando a gente não queria. Isso ressoa com o que você ouve e escreve no Morte sem Tabu?
Quando minha mãe quase morreu, lembro de pegar o celular e pensar: “Eu não posso ligar pra única pessoa que me ajudaria a passar por isso agora.”
Muitas pessoas se pegam estabelecendo uma conversa que quase acontece e fica suspensa diante da ausência. Algumas dizem que a fase mais difícil do luto não foi imediatamente após a perda, mas um tempo depois, quando começaram a esquecer, mesmo que só eventualmente, porque esses monólogos imaginários foram escasseando. Isso ressoa muito no que escrevo, principalmente porque minha jornada no Morte sem Tabu começa na pesquisa do meu doutorado, quando percebi que muitas pessoas se arrependem de conversas que teriam tido se soubessem que a vida de alguém amado estava realmente chegando ao fim.
Você escreve sobre morte o tempo todo. O que ainda te pega desprevenida?
A morte abrupta é sempre um susto, por mais que eu já tenha escrito centenas de vezes que isso acontece. Nunca estamos preparados para o fim repentino, sem despedida. E morte repentina de criança é algo quase impossível de processar. Mesmo sabendo que crianças também morrem — escrevi um texto que tem exatamente esse título —, a gente perde o chão.
Recentemente, a mãe de um amiguinho da minha filha de quatro anos me mandou mensagem sobre uma criança da família que havia morrido. Me esforcei pra encontrar as palavras que conhecia pra ajudar, mas, nessas horas, tudo parece muito insuficiente.
Quando alguém morre, a obra continua. O que muda primeiro, a música ou quem está ouvindo?
Acho que a mudança é simultânea. Ouvir uma música sob a lembrança da morte transforma a letra e o que sentimos sobre ela. Às vezes, pensamos nela de um jeito totalmente novo.
“O Bêbado e a Equilibrista” sempre foi uma das minhas preferidas. Desde que Aldir Blanc morreu, toda vez que penso na música lembro da morte dele e escuto tudo de outra forma, como se a percepção da canção tivesse se deslocado no tempo.
Também penso que a morte que transforma uma música nem sempre é a de quem a compôs. Recentemente, publiquei uma carta para Gilberto Gil depois de assistir à turnê “Tempo Rei”. Escrevi sobre a ausência de Preta Gil enquanto escutávamos o verso “Os meninos são todos sãos”. Quando Preta adoeceu, comecei a me emocionar de outro jeito ouvindo “Drão”. E, a partir dessa nova emoção, a música virou outra. Também acho meio doido pensar que, enquanto o compositor existe, ele ainda pode mudar alguma coisa, como Chico fez com “Beatriz”, música que deu nome à minha filha. Ele mudou a canção, mas eu, humildemente, rejeito a mudança, porque não posso mais abdicar da ideia de vida divina da minha Beatriz.
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Fotos por Camila Torrente e Tatiana Bicalho
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