
Entre música, silêncio e direção de atriz, Mini Kerti constrói histórias onde o ritmo da cena importa tanto quanto o texto.
Mini Kerti construiu parte da sua trajetória entendendo que direção também é ritmo. Não apenas no texto ou na atuação, mas no que circula entre imagem, silêncio, música, respiração e presença dentro de uma cena. Existe uma atenção constante ao tempo exato em que algo precisa avançar, parar ou simplesmente permanecer sem explicação. Talvez por isso seus trabalhos consigam atravessar televisão, publicidade, música e cinema autoral sem perder identidade. Em projetos como “Sob Pressão”, no documentário sobre Dona Onete ou em “Juntas & Separadas”, Mini ajudou a construir parte importante da linguagem audiovisual brasileira recente entre televisão, música e cinema. A música atravessa esse processo não como trilha complementar, mas como estrutura dramática. Algo que altera a temperatura, desloca o sentido e organiza a emoção antes mesmo da cena se resolver completamente. A playlist “Ritmo da Cena” ajuda a entender esse pensamento. Arlindo Cruz, Dona Onete, Gilberto Gil, Isaac Hayes, Clara Nunes, Bob Marley, Velvet Underground e King Tubby aparecem como referências que atravessam atmosfera, corpo e narrativa. Na conversa com o deepbeep, Mini Kerti fala sobre preparação, improviso, direção de atriz e sobre o momento em que explicar demais começa a enfraquecer uma imagem.
Lísias Paiva, sócio-editor
Com a colaboração de Claudio Thorne
Você já dirigiu pessoas que têm uma presença tão forte que quase não precisam de direção. Em que momento você percebe que intervir pode atrapalhar mais do que ajudar?
A preparação guia o meu processo. Gosto de construir tudo antes das filmagens: ensaios, conversas sobre a história, as relações entre os personagens, a função de cada cena e as transformações ao longo da narrativa.
Quando chegamos ao set, já está tudo bem alinhado, o que permite confiar na atriz, nas escolhas que fizemos juntas e também nas decisões que ela constrói sozinha. Ao mesmo tempo, é essencial deixar espaço para o improviso e para a surpresa, porque isso traz frescor para a cena e para a história. Eu intervenho apenas quando a atuação começa a se afastar do que a cena pede dentro do arco dramático. O diretor tem a visão do todo, entende as curvas dos personagens e como elas se relacionam.
É como uma dança: precisa ter ritmo e fluidez. Se um personagem invade o espaço do outro ou ocupa o mesmo lugar dramático, isso pode enfraquecer a narrativa. Às vezes, um ajuste sutil já faz toda a diferença. Então intervenho nesse sentido, para ajudar a encontrar o tom próprio de cada personagem e manter esse equilíbrio.
Seu trabalho muitas vezes nasce da música ou se organiza a partir dela. O que a música resolve em uma história que o roteiro não resolve sozinho?
Ah, muita coisa. O cinema é movimento, é drama, mas também é clima. Às vezes está tudo certo — atuação, fotografia, roteiro —, mas falta algo que conecte de fato com o espectador.
A música ajuda a construir esse clima, dá alma à cena. Em muitos casos, ela diz o que não está explícito e faz a cena crescer, ganhar vida. Mas também é importante saber usar o silêncio. Esse contraste entre som e ausência de som cria tensão, respiro e sentido.
E tem ainda as escolhas: se entra uma canção conhecida ou um instrumental, quais timbres usar, violão, percussão, baixo, guitarra. Tudo isso muda a forma como a cena é percebida. No fim, a música pode ampliar o significado e o impacto do que está sendo contado.
Você transita entre projetos muito diferentes, da TV aberta a trabalhos mais autorais. O que você não negocia quando muda de escala?
Eu não negocio o coração, a alma do projeto, da ideia, do filme. Isso precisa permanecer. Ao mesmo tempo, entendo o cinema como um trabalho coletivo. Ouvir, trocar e colaborar — seja com a equipe criativa ou com executivos — sempre pode fortalecer o que está sendo construído. A experiência na publicidade me trouxe muito essa escuta. Isso não significa abrir mão do que é inegociável, mas saber encontrar um caminho possível. Quando as trocas são qualificadas e sensíveis ao que o projeto pede, o resultado só ganha.
Existe um momento em que uma cena começa a “funcionar” rápido demais. Isso te tranquiliza ou te deixa em alerta?
Eu costumo ser rápida na construção das cenas, às vezes até mais do que gostaria. Queria ser mais calma nesse processo, mas sou ansiosa, rs.
Quando uma cena começa a funcionar rápido demais, isso me deixa atenta. Claro que é ótimo quando tudo encaixa, mas gosto de olhar de novo, testar, ver se não tem algo ali que pode ir além. Nem sempre o caminho mais imediato é o mais interessante.
Quando você está montando uma história, o que você decide não explicar?
Eu não explico aquilo que a imagem já dá conta de dizer — que, pra mim, é um dos maiores prazeres de dirigir: contar pelas imagens, e não pelas palavras. Pode ser uma emoção no rosto da atriz, um movimento de câmera, uma série de cortes ou até um plano-sequência mais elaborado. Quando a cena funciona assim, não precisa de explicação.
Acompanhe o trabalho de Mini Kerti
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Mini Kerti no IMDb
Mini Kerti na Conspiração Filmes
“Juntas & Separadas” na Globoplay com direção de Mini Kerti
Trailer de “Dona Onete” com direção de Mini Kerti
Livro “Arte Brasileira para Crianças” idealizado por Mini Kerti
“Sob Pressão” na Globoplay com direção Mini Kerti
Fotos por João Januário
Agradecimentos à Cláudia Rocha da Agência Enne
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