
Em dez anos, o WME ajudou a reorganizar a música brasileira muito além do palco. Claudia Assef e Monique Dardenne falam sobre originalidade, presença e construção de cena.
O Women’s Music Event nunca foi só um evento de música. Desde o começo, o WME operou como articulação. Um espaço onde artistas, produtoras, técnicas, executivas, DJs e profissionais da música começaram a se reconhecer não como exceção, mas como cena. De 18 a 21 de junho, em São Paulo, o WME Conference celebra seus 10 anos em um momento em que parte dessa transformação já parece natural. E talvez esse seja justamente um dos sinais mais importantes do que foi construído. Dez anos depois, parte dessa transformação já parece natural. E talvez esse seja um dos sinais mais importantes do que foi construído. Mais mulheres em lineups, bastidores, direção criativa, equipes técnicas e posições de decisão. Mais artistas organizando as próprias narrativas. Mais profissionais deixando de pedir espaço para começar a ocupar. Mas crescer também muda a disputa. Hoje, a conversa já não passa apenas por presença. Passa por permanência, relevância e originalidade em um mercado cada vez mais acelerado, performático e homogêneo. Na conversa com o deepbeep, as cofundadoras Claudia Assef e Monique Dardenne falam sobre construção de movimento, responsabilidade e sobre o que acontece quando uma mudança cultural deixa de ser tendência e começa a reorganizar estruturas. A playlist “Antes de Virar Consenso” acompanha essa leitura. Um recorte do que já está movimentando a cultura antes de virar discurso pronto.
Lísias Paiva, sócio-editor
MONIQUE DARDENNE
Hoje é mais fácil entrar na música, mas continua difícil se manter. O que mudou de verdade nesse intervalo?
Manter a originalidade e apostar nela como diferencial se tornou um dos grandes desafios para artistas nos dias de hoje, com a democratização da produção, dos lançamentos e das estratégias. Acreditar que sua individualidade é seu maior asset.
A busca pela validação digital, pela entrega de conteúdo e por números antes da performance literalmente virou a cabeça dos artistas por sobrevivência, e isso está minando a criatividade mais pura e a essência para se “manterem relevantes”. É a busca pela relevância pasteurizada em detrimento da originalidade.
O se manter virou uma carga muito pesada para artistas, que vai muito além do talento musical. Você precisa ser influenciador, estar ativo em diferentes redes com estratégias diferentes, mostrar sua vida, manter o shape, entregar no palco. A grande demanda por existir é o que mudou.
Teve um momento em que dizer “sim” para tudo deixou de ser possível. O que começou a ficar de fora e como vocês decidiram isso?
O sim para tudo nunca fez parte da nossa essência. Sempre esteve junto a aquilo que fazia ou faz sentido. Os “nãos” e as escolhas concretas alinhadas à nossa essência e aos nossos princípios sempre foram nosso guia. Dizer sim a tudo não constrói posicionamento nem relevância de movimento. Mas conforme o projeto foi crescendo, a responsabilidade e a vontade de muitas pessoas, marcas e movimentos caminharem juntos cresceram também. Nossa questão sempre foi entender e conseguir passar o real tamanho que temos e fazer escolhas coerentes com a nossa construção.
Antes de virar tendência, a música já muda comportamento. O que vocês estão escutando hoje que ainda não virou discurso, mas já está organizando a cena?
Hoje acreditamos na originalidade e na essência, em ocupar espaços com presença até isso se tornar naturalidade. O presente precisa ser igual para todos, todas e todes, e a música vem provando isso em movimentos. Estamos evoluindo. O que mais chama a atenção hoje é, sem dúvida, a relevância das artistas mulheres fazendo e entregando rap. Uma avalanche de talentos puxando umas às outras. Quanto mais uma cresce, mais espaço abre para outra. É impressionante a ocupação, organizada ou não, que essa nova geração vem conquistando por meio da originalidade, da força narrativa, da produção musical, do investimento em carreira e da força de bilheteria. Destacaria elas como a bola da vez na organização dos passos da equidade de gênero no mercado brasileiro.
CLAUDIA ASSEF
Crescer também é começar a disputar narrativa e recurso. Qual foi uma decisão que custou caro, mas manteve o WME no lugar certo?
Crescer, muitas vezes, dói. Nesses 10 anos, tivemos que tomar decisões difíceis, como recusar patrocínios que, apesar de pagarem contas, poderiam nos custar muito mais caro por ferirem, de alguma forma, nossos princípios. Crescer demanda responsabilidade e, até como piada interna, a gente não desceu pro play pra brincar. Nossa vontade de mudar o esqueminha vigente sempre foi muito genuína. Vinha da nossa carne, das nossas experiências de muitos anos passando raiva, muitas vezes sem poder nem compartilhar.
O WME vem crescendo junto com a gente nesses 10 anos. É uma caminhada que, de longe, parece glamourosa, mas, se for usar uma figura de linguagem, seria muito mais um campo de batalha lamacento do que um catwalk cheio de glitter. Mas quando é chamado, não tem jeito. Por maiores que sejam os percalços, a gente vai em frente.
Quando um tema ganha força, ele também corre o risco de se repetir até perder sentido. Como vocês percebem que isso começa a acontecer?
Nosso desejo no início do processo de criação do WME era que o “tema” empoderamento de mulheres perdesse força, porque, se isso acontecesse, o WME não faria mais sentido. Tínhamos até um plano futuro para que o Women’s Music Event se transmutasse em People’s Music Event. Que sonho. Mas por enquanto, esse projeto PME fica no campo da utopia mesmo. 2025 foi tão chocante para a mulher que parece que demos muitos passos para trás como humanidade. Quando estávamos planejando os 10 anos do WME, percebemos que ele nunca foi tão necessário, diante de uma sociedade que aplaude a manosfera e ainda consegue normalizar o fato de Trump ser presidente e outras bizarrices.
Se o WME não existisse hoje, o que não teria sido criado e o que já não depende mais de vocês?
Olha, não é pra nos gabar, mas muita mudança positiva aconteceu por causa dos cutucões que o WME deu no mercado. O avanço da equidade de gênero em festivais, por exemplo, foi reação a provocações que fizemos publicamente nas nossas redes sociais. Também vemos profissionais de áreas técnicas que começaram a trabalhar com a gente lá atrás sendo chamadas hoje para grandes eventos e artistas. Vemos muitos grupos de mulheres da música se formando organicamente, artistas mulheres prestando mais atenção nas próprias equipes e contratando mais mulheres para bandas e times em geral. Tudo isso sentimos que teve um dedo do WME e, se as Deusas quiserem, esse movimento já virou uma sementinha que independe do WME.
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Com a colaboração de Laura Ferrel, coordenadora-geral do WME.
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