
Fracasso, ironia e personagens à deriva como método. Baxter Dury não tenta consertar e leva isso ao C6 Fest.
Baxter Dury construiu carreira fazendo o oposto do esperado. Cantor britânico, filho de Ian Dury, ele escreve a partir de personagens que não se salvam. Homens de terno, meio deslocados, entre autoconfiança e fracasso. Histórias de excesso, relações mal resolvidas e noites que não fecham direito. Mas o ponto não é o personagem. É a decisão de não resolver.
Ele não canta para chegar a algum lugar. Fala, meio canta, quase confessa. Um fluxo seco, mais próximo de um bar às três da manhã do que de um refrão pensado para funcionar. Enquanto muita música hoje chega pronta, ele mantém as bordas abertas. Não tenta parecer bem. Também não tenta consertar isso. E é justamente aí que o trabalho se sustenta. Não no controle. Na permanência do erro.
Esse universo nasce em Londres, entre concreto e rotina repetida. Mas não depende disso para existir. O desconforto funciona fora de contexto. No dia 23 de maio, isso chega ao C6 Fest. Um deslocamento que não suaviza o repertório. Só muda a luz. Canções sobre cocaína, choro e personagens à deriva em um parque aberto, outro ritmo, outra escuta. Ao vivo, dor e ironia aparecem sem filtro. E talvez seja nesse contraste que o trabalho fica mais claro.
Na conversa com o deepbeep, Baxter Dury fala sobre fracasso, identidade e sobre por que não tem problema nenhum em assumir o papel de um “perdedor magnético”. A playlist enviada por ele prolonga esse estado. Marvin Gaye, Roberta Flack, Nancy Sinatra, Lee Hazlewood e Fishmans aparecendo como trilha para a manhã seguinte. Dor, esperança e um certo cansaço elegante coexistindo sem muita pressa.
Lísias Paiva, sócio-editor
Você transformou o “homem triste e meio iludido de terno” em alta estética. Em um pop obcecado por vitória e perfeição, por que o “perdedor magnético” atrai tanto? Assumir que está meio destruído é, no fim, uma forma de confiança?
Eu realmente não percebi que estava admitindo nada. Só estava cuidando da minha vida normalmente. A percepção e a interpretação nem sempre estão sob meu controle, mas gosto da ideia de um perdedor magnético.
Seu som nasce de céu cinza, concreto e um certo tédio do oeste de Londres. Agora você leva essas músicas para um parque tropical no Brasil. A tristeza viaja bem? Músicas sobre cocaína e choro mudam quando bate sol?
Sinto que tenho uma espécie de marca internacional de sofrimento. Talvez tenha nascido aqui, mas pertença aos trópicos mais do que nunca. É uma mistura de dor e esperança, e isso talvez fique mais evidente ao vivo.
“I Thought I Was Better Than You” parecia uma forma de lidar diretamente com a sombra do “pai famoso”. Como se você dissesse “sim, eu sei” antes de qualquer outra pessoa usar isso contra você. Depois de enfrentar esse fantasma, escrever ficou mais leve ou sempre aparece um novo?
Falar sobre não querer falar disso ainda é falar disso. E eu realmente não me importo. Não tenho o direito de ser preciosista com esse assunto, então melhor brincar com ele.
Você não canta exatamente, nem faz rap. Sua entrega passa por um spoken word meio torto, quase como uma confissão no fim de um bar. Isso é uma escolha estética ou simplesmente a forma mais natural de dizer essas letras?
Sou um cantor limitado, então é minha única opção. Mas se eu soubesse cantar melhor, ficaria segurando notas longas o tempo inteiro.
A maioria dos músicos tenta permanecer jovem para sempre. Você parece confortável ocupando esse lugar de “tio rabugento estiloso”. Qual é o plano final? Virar um patrimônio nacional respeitável ou continuar sendo o cara perigoso no fim do bar?
Um patrimônio nacional perigoso.
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Fotos por Tom Beard
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