Tamenpi garimpa o que a fórmula não entrega

Tamenpi do Só Pedrada Musical em entrevista e playlist para o deepbeep

No excesso de música e repetição de fórmula, o Só Pedrada Musical opera como filtro. Curadoria com escuta, não com atalho.

Tamenpi trabalha com música antes dela virar padrão. Hoje tudo chega rápido. E se repete mais rápido ainda. A dificuldade deixou de ser acesso. Virou critério. Tem mais artista, mais selo, mais faixa. E, junto, mais coisa parecida. A fórmula já não aparece só no topo. Ela se espalha e esgota a própria cena. O Só Pedrada Musical nasce antes disso virar regra. Em 2006, quando ainda era blog, já operava como filtro. O termo “pedrada” nunca foi sobre tendência. Sempre foi sobre impacto. Aquela música que bate no peito e pede replay. De lá para cá, o papel só ficou mais evidente. Garimpar o que não entra fácil. O que não se repete tão rápido. Conectar passado e presente sem nostalgia e sem pressa. A pista veio depois. Não como expansão, mas como consequência. Quando a curadoria sai da tela e vira corpo, ela deixa de ser escolha individual e vira experiência compartilhada. Na playlist que ele Tamenpi montou para o deepbeep, esse método aparece sem ajuste. Um recorte do que ainda não virou padrão.

Lísias Paiva, sócio-fundador

Tamenpi, o Só Pedrada Musical se consolidou como um selo de qualidade. Olhando para o cenário musical atual, qual é a principal missão ou inquietação que move seu trabalho hoje?
Primeiramente, agradeço as palavras e o reconhecimento. Eu enxergo que atualmente tem muito mais coisas saindo em termos de quantidade: artistas, bandas, selos, músicas. Mas, ao mesmo tempo, muitas fórmulas vêm sendo usadas e copiadas em larga escala. Então, obviamente, tem muita coisa boa e criativa acontecendo, porém fica numa bolha mais alternativa, poucos a furam. A música mais popular segue fórmulas. Isso sempre aconteceu, porém atualmente sinto que está saturado demais. Falo muito pelo rap, que é a minha escola musical principal. Antes, o que mais importava era a originalidade do artista, o flow diferente, as rimas mais bem elaboradas, bons beats. Ninguém queria ser igual a ninguém. Hoje parece que a maioria tenta seguir a fórmula do que está dando certo. “Fulano está bombando, vou fazer igual que vai dar certo”. Na maioria dos casos, não dá certo. E a fórmula repetida acaba desgastando e esgotando muito a cena. Essa é uma inquietação.
Óbvio que existem muitas exceções e a missão é continuar sempre à procura de quem está em busca de fazer música boa, original e com identidade. E tem muita coisa boa acontecendo no mundo todo, em diversos gêneros. A incumbência é mergulhar a fundo nessa pesquisa para achar essas pérolas escondidas ou esquecidas. Do presente e do passado.

O que, para você, realmente define uma pedrada musical?
Na verdade, o termo “pedrada” relacionado à música vem de gíria. Muito usada no Nordeste, principalmente pela galera do reggae. Eu usava bastante o termo para me referir àquela música que bate no peito. Quando criei o blog em 2006, veio a sacada do “Só Pedrada Musical”. Acho que a pedrada musical vai desde os grandes clássicos atemporais que atravessam gerações até aquele som que te arrepia e pede repeat ao escutar. É o impacto e o poder que a música tem.

Qual é o papel do curador musical hoje, em uma era dominada por playlists automatizadas?
Eu sou DJ desde 1999. Quando comecei a tocar, esse já era o papel do DJ e foi o que me encantou nessa profissão. Trazer novidades, relembrar o clássico, garimpar raridades e obscuridades. Os DJs foram os primeiros curadores musicais. E ouvido de verdade, com bom gosto apurado, é humano. Ferramentas podem até sugerir bem, mas não acho que se igualam. Sim, o papel de um curador hoje é uma mistura de tudo isso. E cada vez mais um ato de resistência cultural. Seguimos na luta.

Qual a importância de levar essa curadoria do online para a pista e o encontro físico?
O Só Pedrada ter virado festa foi algo que aconteceu naturalmente. Nunca foi a intenção. Em 2011, por sorte do destino, caiu no meu colo a oportunidade de fazer um DJ set do Questlove, que estava de passagem pelo Brasil e queria discotecar. O blog estava completando cinco anos e, em parceria com a +SOMA, fizemos essa festa com ele. Foi histórica. Nesse momento, percebi a importância desses encontros para propagar essa música boa na pista também, não somente online. No começo era algo bem esporádico. Festas anuais. Nos últimos anos, principalmente pós-pandemia, a festa se intensificou em São Paulo e pelo Brasil. Criou-se uma comunidade forte, tanto do público quanto de artistas que se identificam com a proposta. Para mim, as festas se tornaram uma necessidade pessoal. Não são todos os lugares que permitem tocar essa pesquisa com liberdade e também convidar DJs para sets mais soltos. Todo mundo fica feliz. A pista rende ótimos momentos. Quem ganha é o público.

Como você mantém seu garimpo sempre afiado, surpreendente e à frente das tendências? Quais são suas fontes de descoberta mais preciosas (talvez selos independentes, uma rede de contatos com outros DJs e colecionadores, pesquisas em arquivos antigos) que te permitem fugir do óbvio e do que todo mundo já está ouvindo?
Minhas fontes são diversas, incluindo todas essas. Até hoje uso Soulseek e pesquiso em alguns blogs de música dos anos 2000 que continuam firmes. Claro que também uso as facilidades mais imediatas. Hoje quase todos os lançamentos estão a um clique de distância. Mas as pesquisas mais profundas não chegam assim. Tem que garimpar de verdade.

Acompanhe o trabalho do Tamenpi
Só Pedrada Musical por Tamenpi no Instagram
Site Só Pedrada Musical por Tamenpi
Só Pedrada Musical por Tamenpi no Mixcloud
Tamenpi no Soundcloud
Tamenpi no Twitch

Fotos por Felipe Diniz


Ouça a playlist do Tamenpi no seu player favorito

.


.

No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.

Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também