Getúlio Abelha não organiza o que já nase distorcido

Getúlio Abelha em entrevista e playlist para o deepbeep

Getúlio Abelha faz piseiro com distorção, forró que não limpa, eletrônico que realça a sujeira. Tudo pulsa junto.

Getúlio Abelha não explica o Nordeste. Ele o tira do lugar. Pernambucano, cresceu num Nordeste que a TV costuma vender pronto. Encontrou outro. Transgressor, múltiplo, aberto. E faz música a partir disso. Piseiro com distorção. Forró que não limpa. Eletrônico que não corrige. O excesso aparece. A estrutura segura. Tudo se conecta porque parte do mesmo lugar. Não é sobre fugir do previsível. O modo de pensar já nasce deslocado. Então o óbvio não enfraquece. “Toda Semana”, “Tamanco de Fogo”, “Voguebike”. Cada faixa pede um caminho. Mas a lógica se mantém. Ele opera como artista popular sem simplificar o que faz. Chega em muita gente sem limpar a sujeira. Na playlist que montou para o deepbeep, O Som da Desobediência, essa mesma lógica aparece sem filtro. Depeche Mode, Pinduca, Björk, Mestre Solano. Tudo junto, sem hierarquia.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Existe uma expectativa de que a cultura nordestina seja apresentada de forma mais “organizada” e palatável. Quando você entra em cena misturando forró, estética queer e energia punk, o que você sente que está tensionando nessa imagem?
É muito natural pra mim. Tenho consciência do que construí no forró, mas isso vem de uma reflexão posterior ao que fiz. Ao mesmo tempo, faço um trabalho para pessoas minimamente abertas e interessadas nessa visão moderna de Nordeste. Minha perspectiva não passa por esse caminho superconvencional, porque não sou nem capaz de ver o Nordeste dessa forma. Minha história não é a mesma da TV. Nasci e cresci num Nordeste transgressor, múltiplo e aberto, mesmo com falhas estruturais ali no meio. Mas todos os traumas do sistema também foram importantes para a construção da minha visão.

Seu visual e seus clipes passam uma sensação de excesso e caos, mas existe um cuidado evidente na construção. O que você precisa deixar sob controle para que essa energia não se perca?
A confiança de que tudo se conecta, porque tudo parte de dentro de mim. Isso, consequentemente, deixa o trabalho consistente, mesmo que pareça um sonho surreal.

A internet tende a transformar tudo em formato rápido e repetível. Em que momento você percebe que uma ideia sua começa a ficar previsível demais e o que você faz a partir disso?
Eu não tenho medo de que algo que eu faça possa passar pelo previsível ou pelo clichê. Simplesmente é o que é. Não busco fugir de nada. Me sinto seguro para enfrentar e defender qualquer característica do meu trabalho. Meu modo de pensar já é distorcido em sua própria base, então não há problema em ele passar pelo óbvio.

Sua música cruza piseiro, eletrônico e distorção de um jeito muito particular. No processo de criação, como você encontra o ponto em que a faixa ainda se comunica com muita gente sem perder a sujeira e a urgência?
Cada música e cada momento pedem algo, mas me considero um artista popular em essência, então esse limite é orgânico.

Já teve algum momento em que você sentiu que estavam consumindo sua estética, mas não entendendo o que você está dizendo?
Não, porque a minha estética não diz mais ou menos do que a minha musicalidade, o show ou qualquer um dos elementos que estão na obra.

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Fotos por Luan Martins

Agradecimentos à Francine Ramos

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