YoSoyMatt faz a máquina sentir saudade

YoSoyMatt em entrevista e playlist para o deepbeep

YoSoyMatt produz eletrônico 100% digital e passa a carreira tentando manter algo humano ali dentro. Essa tensão que move o som.

YoSoyMatt fecha os olhos antes de considerar uma faixa pronta. Não é sobre mixagem. É para ver se a música aparece. Lugar, luz, textura. Se isso ainda não existe, a faixa não terminou. Ele leva essa lógica para tudo. Roberto Matthews usa cadeira de rodas há quase duas décadas e constrói sua presença a partir disso. O centro não é gesto físico. É leitura, energia e decisão. Nascido em Veracruz, México, chama o que faz de electro latino, mas não trabalha com gênero como ponto de partida. O que importa é o que escapa. O pequeno desvio, a respiração, o que a quantização resolve rápido demais quando tudo precisa funcionar. “La niña del volcán”, com Polo & Pan, passou de dezenas de milhões de streams sem ajustar essa lógica. Dois Discos de Ouro depois, a pergunta continua aberta: “Quanto de Veracruz cabe numa faixa eletrônica?” Pelo jeito, mais do que a pista imagina. A playlist que ele montou para o deepbeep segue essa mesma ideia. Não organiza faixas. Cria cenário. Um recorte do que ele escuta quando quer sair da música e entrar em outro lugar.

Lísias Paiva, sócio-fundador

Em que momento o som deixa de ser só música e vira história pra você?
Pra mim isso acontece quando o som deixa de cumprir só uma função estética e começa a provocar imagens, emoções ou lembranças muito específicas. Quando uma melodia já não só “soa bem”, mas me faz imaginar um lugar, uma luz, uma textura ou até um personagem, sinto que a música começou a virar história. Gosto muito de pensar a música como construção de mundos. Não só como algo que acompanha um momento, mas como um espaço em que você pode entrar.
Por isso trabalho tanto a atmosfera. Fico obcecado em fazer cada elemento, um sintetizador, uma percussão distante, uma voz processada, ajudar a criar uma sensação de profundidade quase cinematográfica. Não separo muito o som do visual nem do emocional. Pra mim, tudo faz parte da mesma linguagem. Se eu fecho os olhos e ainda não consigo “ver” a música, sentir o clima dela, entender o universo que ela propõe, então ela ainda não está pronta.

O que você precisa preservar pra que isso não se perca no processo?
O mais importante é preservar a intenção humana dentro do processo. Hoje a gente tem ferramentas incríveis pra editar, corrigir, quantizar e deixar tudo perfeito, mas é justamente aí que mora o risco de apagar o que faz algo parecer vivo. Pra mim é essencial manter algum gesto humano. Um pequeno descompasso rítmico, a respiração, uma textura imperfeita, algo que preserve movimento real.
Também tem um lado cultural que eu não quero perder. O latino não está só em usar certos instrumentos ou padrões rítmicos. Está na forma como a gente habita o ritmo com o corpo, no jeito que o groove empurra, em como a nostalgia e a celebração convivem ao mesmo tempo. Isso vem de uma memória coletiva. Então, mesmo trabalhando com sintetizadores, samplers e produção digital, eu tento fazer com que, por baixo de toda essa arquitetura tecnológica, continue batendo algo humano, quente e próximo.

O que te permite acessar esse imaginário que a cidade não oferece?
Tem muito a ver com a minha história. Eu nasci em Veracruz, uma cidade de marinheiros, então o mar não é só paisagem bonita pra mim. Ele está ligado à memória, à família, à infância, à identidade. A cidade também me inspira, mas ela te empurra pra velocidade. Produzir, responder, resolver. Tem muito ruído externo. Quando penso no mar ou na natureza, entro em outro tempo. Um tempo mais contemplativo, mais aberto. E é aí que surgem ideias diferentes, mais intuitivas, menos forçadas. O mar também tem algo que me atrai muito. Ele combina calma e força ao mesmo tempo. Pode ser silencioso, violento, nostálgico. Tem muitas camadas, igual à música. Acho que é por isso que volto sempre pra esse lugar.

Como você sabe quando uma música já disse o suficiente?
Essa é uma das decisões mais difíceis, porque produzir também é saber parar. Muitas vezes a gente continua adicionando camadas porque ainda não confia que a emoção já está ali. Pra mim existe um momento claro. Quando tirar algo, começa a prejudicar o sentido central da música. Gosto da ideia de que a música precisa respirar. Não gosto quando ela fica carregada por ansiedade de mostrar demais. Se com poucos elementos você já construiu emoção, tensão ou movimento, talvez não precise de mais nada. O excesso, muitas vezes, responde mais ao ego do produtor do que à música. Também gosto quando a faixa ainda guarda mistério. Quando deixa espaço pra quem ouve completar com a própria experiência.

Quando você não está criando, o que te traz de volta pra você mesmo?
Coisas simples. Estar com família, com amigos, ter conversas sem precisar produzir nada. Comer bem. Ouvir música sem analisar. Voltar a ser alguém que só vive, não alguém que está pensando no próximo projeto. Existe essa ideia de que você precisa estar sempre criando, mas se você vive assim o tempo todo, você se esvazia. Pra criar, você também precisa viver sem transformar tudo em conteúdo. Pra mim isso também passa por voltar pro corpo, entender meu ritmo, saber quando desacelerar.

Já teve alguma música sua que foi entendida de um jeito totalmente diferente do que você imaginava?
Sim. “Yosoymatt”, com Hermanu, é o melhor exemplo pra mim. Ela nasceu como algo muito pessoal, quase um exercício íntimo durante a pandemia. Eu me perguntava como me via no futuro, 10, 20, 30 anos, e a resposta sempre era a mesma. Dançando. Pra mim isso tem um peso grande porque, por causa da minha deficiência, dançar hoje é algo que vivo muito mais internamente. Como emoção, como desejo, como imaginação. Mas quando a música saiu, ela deixou de ser só minha. Virou quase um hino pra muita gente naquele momento. O contexto fez com que ela ganhasse outro significado. O que era pessoal virou coletivo. E até hoje, quando ouço, ela me leva de volta pra aquele período. Um momento incerto, mas também cheio de esperança.

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Fotos por Pablo Astorga Diaz e Rex Córdova

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