Juvi Chagas não cabe mais na própria forma

Juvi Chagas entrevista e playlist para o deepbeep

Entre identidade, som e exposição, Juvi Chagas assume a ruptura como método e abandona o que não sustenta mais.

Juvi Chagas não está tentando se preservar. Está tentando seguir. “O Sonho da Lagosta” parte de uma ideia simples. Para crescer, precisa rachar. E, depois que racha, não tem volta. O disco nasce daí, mas não resolve tudo. Ele é mais sintoma do que ponto de chegada. O que aparece ali vem de uma sequência de cortes. Identidade, cidade, crenças, relações. Coisas que já não sustentavam mais. E quando deixam de sustentar, insistir nelas só atrasa. Mas também tem outro risco. Se apegar ao que acabou de virar. Trocar uma rigidez por outra. Esse movimento aparece o tempo todo. Não fixa. Continua em movimento. Nada vem isolado. A música não vem sozinha. Escrita, imagem, presença. Tudo misturado. A visibilidade cresce, mas não organiza o processo. Nem precisa. Fazer tudo sozinha reforça isso. Dá autonomia, mas também concentra erro. E isso fica visível. No que não está resolvido. No que ainda está sendo testado. Na conversa com o deepbeep, Juvi Chagas fala desse lugar sem tentar fechar resposta. O que precisou abandonar, o que ainda está em trânsito e por que crescer, às vezes, passa por não ter onde se apoiar. A playlist “Antes da Casca Rachar” acompanha esse momento. O som que entra quando ainda não dá para explicar o que está mudando.

Lísias Paiva, sócio-fundador

Juvi, “O Sonho da Lagosta” parte da ideia de quebrar a própria estrutura para crescer. O que em você precisou rachar que não dá mais para remontar do jeito que era?
O sonho da lagosta veio dessa ideia de quebrar a própria estrutura para crescer. O disco nasce muito de uma Juvi que se entendeu uma pessoa trans, não-binária, que já vive em São Paulo há alguns anos. Eu já tive várias rigidezes. Já fui evangélica, já fui de direita, já ouvi só metal quando era adolescente. Hoje sou uma pessoa muito mais feliz porque abandonei essas cascas. É impossível voltar para o estado de onde eu vim. Mas também existe um esforço para não ficar estagnada no estado onde estou agora. A gente precisa entender o mundo em que vive, atualizar as tecnologias, quebrar tabus e seguir em frente. O disco vem muito disso, de largar zonas de conforto e se ver vulnerável para continuar sentindo.

Você construiu visibilidade antes da música ganhar escala. Em que momento a exposição começa a disputar espaço com o que você realmente quer fazer?
Minha visibilidade começou falando sobre música. Eu tinha um canal no YouTube, o “Tá Na Capa”. Depois disso, já tinha até desistido de rede social e estava trabalhando como editora de vídeo. Durante a pandemia, baixei o TikTok e as coisas deram certo meio por acidente com o quadro “Top 5”. A exposição disputa espaço com a música, sim, mas a música é anterior a isso. E a escrita é mais anterior ainda. No fim, tudo se mistura. Nem todo mundo que gosta do que eu falo vai gostar do que eu canto, e nem quem gosta da música vai gostar do que eu falo. Talvez essa seja a parte mais interessante: viver tudo misturado e não separado.

Você assina praticamente tudo no disco. Fazer tudo sozinha é liberdade, mas também concentra erro. O que você faz quando percebe que a decisão não tem para onde fugir?
Fazer tudo sozinha é o jeito que eu aprendi. Depois que saí da igreja, comecei a gravar sozinha no computador. Isso virou um processo muito terapêutico. Entrar no quarto e gravar coisas que, às vezes, só eu vou escutar. A graça está nisso. Em perceber que eu consigo fazer música. Mas quando eu levo isso para o palco com a banda, tudo ganha outra dimensão. É como se a múmia levantasse do sarcófago.

Seu trabalho sempre flertou com humor, mas agora ele aparece como desvio, não como centro. O que deixou de ser engraçado para você?
O que deixa de ser engraçado é quando resumem meu trabalho a comparações. Eu gosto dessas referências, mas sempre teve mais coisa ali.
A música brasileira sempre teve humor, mas nem sempre isso significa que ela é só humorística. Nesse disco, o humor é mais um acidente. Um rir para não chorar. Veio de um momento de crise, de fossa, de relações. Eu não pensei em ser engraçada. Acho que chegou o momento de falar mais sério, mesmo que nunca totalmente.

Tem alguma música que te ajuda a atravessar esse tipo de fase sem organizar demais o que você está sentindo? O que ela faz no seu corpo?
“Trovoa”, do Maurício Pereira, me ajuda muito. Tanto a versão original quanto a do Metá Metá. Elas me colocam num fluxo de consciência, numa avalanche de palavras que me atravessa. “Metal Contra as Nuvens”, da Legião Urbana, também. São músicas que me fazem esquecer um pouco do meu próprio corpo. Elas são muito cerebrais e me ajudam a atravessar esses momentos.

Você fala de rupturas em vários tipos de relação. O que é mais difícil: reconhecer que acabou ou sustentar a escolha depois?
Reconhecer que acabou é o mais difícil. É um momento de câmera lenta. Você tenta negociar, tenta encontrar outra saída. Mas quando você entende, não dá mais. A fruta está podre. Não adianta tentar salvar um pedaço. Ao mesmo tempo, as rupturas são tão importantes quanto as religaduras. Dá para reatar, dá para reconstruir. É preciso ter força para romper, mas também humildade para voltar quando faz sentido.

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Agradecimentos à Piky Candeias da Piky Comunicação

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