Joaquim Lopes prefere o risco ao controle

Joaquim Lopes playlist para deepbeep

Entre palco, câmera e fogão, Joaquim Lopes escolhe presença. Mesmo quando não performa.

Joaquim Lopes conhece a lógica que organiza a atenção hoje. Televisão, redes, audiência. Um sistema que transforma espontaneidade em produto e premia quem controla cada gesto. Ele circula por esse ambiente sem operar por ele. Na cozinha, o tempo desacelera. Faca na mão, fogo aceso, alguma música correndo ao fundo. Ele entra em estado. Observa, ajusta, espera. Nada acontece no automático. No palco e na frente da câmera, a exigência muda pouco. Presença, ritmo, escuta. Ele fala da atuação como eletricidade viva. Um estado que não se sustenta sem entrega e não pode ser simulado. O trabalho não responde ao controle. Em algum momento, algo escapa. E não adianta acelerar. É nesse ponto que o processo acontece. Na conversa com o deepbeep, Joaquim fala sobre sustentar esse lugar. Não polir demais, não organizar tudo para parecer pronto, não confundir controle com consistência. A música entra como eixo. O que organiza o ritmo quando o resto vira ruído. A playlist “O Som da Cozinha” nasce desse gesto. Uma seleção que acompanha o processo, não o resultado. Música para cortar, provar, errar, ajustar. O som que mantém o corpo presente enquanto o trabalho acontece.

Lísias Paiva, sócio-fundador

A atuação e a cozinha operam na mesma frequência de risco e exigem um estado absoluto de presença. O ritmo do palco e o tempo do fogão não perdoam a desatenção. Onde essas duas linguagens colidem na sua cabeça e qual é a música interna que dita o pulso do ator e do cozinheiro ao mesmo tempo?
Nunca tinha feito esse paralelo e ele faz muito sentido. Ritmo, tempo e presença, sem dúvida alguma. Presença! Na parte da dramaturgia, ela se faz necessária para que você possa se emprestar para a história que está sendo contada, para a emoção que está sendo passada. E se isso for sem presença e convicção, a identificação do público não acontece.
Na gastronomia é a mesma coisa, com um detalhe. Ao preparar um alimento, eu entro quase que num estado meditativo. Como se eu fosse observador de mim mesmo, combinando ingredientes que culminam no prato final. Atuação é paixão. É eletricidade viva. Gastronomia é amor. É calmaria que acalenta. Uma música que transitaria perfeitamente entre as duas expressões artísticas para me colocar nesse lugar de presença criativa e intensa seria essa.

A televisão exige que o apresentador quebre a quarta parede e fale olhando nos olhos da massa. A dramaturgia cobra o silêncio absoluto e o esquecimento da câmera. Como funciona a matemática mental para desligar a comunicação direta e afinar a frequência exigida por um personagem denso?
Eu não entendo que seja preciso desligar uma coisa para ligar outra. Não acho que seja possível, é o que quero dizer. Tudo está dentro de mim. O apresentador, o ator, o cozinheiro, o pai, o filho, o palhaço e todo o panteão de emoções com as quais eu tive contato e que se transformam em milhões de outras nuances de sentimentos. E é justamente isso que me possibilita entrar na frequência de um personagem.
É o que você escolhe, subjetivamente e conscientemente, através das ações objetivas de cada personagem, que concretizam o caminho para uma performance na televisão, nos palcos e nas telas. O ser humano é capaz de tudo o que já foi feito por algum outro ser humano. Na nossa vida, fazemos escolhas que nos parecem pertinentes e possíveis de serem sustentadas para que possamos transitar pela vida da maneira que consideramos a melhor para nós.
Entrar na frequência de um personagem nos dá a liberdade e a segurança das não consequências que certamente apareceriam na vida real, de experimentar as sensações e os sentimentos que normalmente não optaríamos por experimentar na nossa rotina. E por que isso é importante? Porque, preferivelmente, o espectador pode olhar o seu trabalho, se identificar com aquilo que o personagem está atravessando e se relembrar de que não está sozinho, de que ainda é humano e de que sempre existe a possibilidade de fazer novas escolhas.

O mercado digital esvaziou o atrito e transformou a vida num conteúdo higienizado para o feed. A sua rota foge desse polimento e banca uma comunicação mais crua e visceral. Como você blinda a própria espontaneidade contra uma engrenagem que tenta pasteurizar todo mundo até virar algoritmo?
Nesse mundo onde cada vez mais nos afastamos do real, com inteligência artificial, filtros e notícias falsas, me parece fundamental proteger isso. E não me entenda mal. A vida polida para potencializar ao máximo o algoritmo pode ser muito lucrativa, mas não é o tipo de coisa que me interessa. Nem o que eu acredito que resista ao teste do tempo. O que é real, com toda a sua perfeição imperfeita, é a única coisa que eu acho que pode ecoar na eternidade.

A comédia e o drama são pura matemática musical. A piada e o choro dependem estritamente do andamento, da pausa e do ataque da nota no tempo exato. Onde a música entra no seu processo de criação para te ajudar a encontrar o pulso de uma cena ou o humor escondido num texto?
Cada música nos atravessa em algum lugar. E eu ouço música desde o momento em que eu acordo até a hora de dormir. Seja para trabalhar, fazer exercício, enfrentar o trânsito ou tomar banho. E, dentro de um processo criativo, eu sempre gosto de deixar um espaço de não-controle, para que algo indizível aconteça.
Eu tenho sempre uma certeza quando estou imerso num projeto. Em algum dia, em algum momento, algo vai clicar. E não adianta tentar empurrar ou correr com isso. É um processo que acontece por conta própria. E, muitas vezes, uma música consegue encapsular aquilo que você estava procurando. É sobre estar atento àquilo que não se pode tocar.

A paternidade arrebenta o centro de gravidade de qualquer pessoa e reorganiza o tempo, o medo e a coragem num compasso totalmente novo. Essa travessia alterou a sua escuta como ator a ponto de liberar o acesso a emoções que o seu corpo de antes não conseguia alcançar?
Com toda a certeza. Até porque o sentimento que se tem por filhas ou filhos é um sentimento que, até eles chegarem, simplesmente não existe. Você entende que, apesar de já sentir muito, você é capaz de sentir infinitamente. A ponto de precisar da arte, seja ela qual for, para dar vazão a tudo isso e para elaborar esse turbilhão de emoções.

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