Febre90’s invade o palco eletrônico e mostra que o Boom Bap ainda move o corpo certo

Febre90's playlist para deepbeep no Lollapalooza

Pumapjl e SonoTWS tratam o rap como linguagem viva e mostram como a textura da rua atravessa gerações sem virar peça de museu.

Tem som que exige teto baixo. Grave batendo no peito. Resposta imediata. O boom bap nasceu assim. O Febre90’s entende essa origem e recusa o limite. A estética dos anos noventa aparece como linguagem em expansão. O que era porão ganha escala sem perder peso. No sábado, 21 de março, às 15h30, esse deslocamento chega ao Palco Perry’s. Em um festival guiado por estímulo constante, a dupla entra em outro registro. Menos efeito, mais textura. Menos pressa, mais impacto. Na conversa com o deepbeep, o duo fala sobre sample como matéria emocional, a relação entre gerações e o desafio de manter a fisicalidade do rap em escala ampliada. O papo vem acompanhado da playlist A Estética do Grão, uma seleção que expõe o fundamento do som da dupla. Loops, textura, grave e o valor do recorte como linguagem.

★ BÔNUS: Ao final do papo, o nosso Rider Técnico de Pista aponta onde o grave realmente funciona no autódromo.

Marcelo Nassif, sócio-editor

O boom bap nasce em ambientes fechados, onde o grave bate perto e o público responde de imediato. Em um palco aberto como o do Lollapalooza, como vocês reorganizam essa pressão para que ela continue física mesmo à distância?
O boom bap é a fundação do rap e tem uma estética muito marcada, definida pelo peso da caixa, pelos graves e pelo timbre da bateria. Isso fez com que ele ficasse muito associado a ambientes fechados, mas a gente entende essa estética como uma linguagem, não como um limite. Nosso som tem personalidade e originalidade. A missão do Febre90’s é expandir essa linguagem para qualquer espaço, mantendo a essência.
Sobre a parte sonora, independentemente de shows em grandes festivais ou em clubes menores, uma das nossas principais preocupações é a qualidade técnica. A gente se prepara muito antes, com a equipe, para fazer uma entrega consistente. Nós somos exigentes e nosso público também.
Para o Lollapalooza vamos manter o mesmo padrão. Nossa música já nasce com cuidado nos detalhes. Usamos samplers antigos, timbres sujos e recortes empoeirados, cheios de chiados e textura. Isso ajuda a imprimir nossa identidade por onde passamos.

O som de vocês dialoga com a estética dos anos noventa e a rima fala do presente. Como essa conversa entre tempo e atualidade acontece sem que a referência vire repetição?
O segredo do Febre90’s vem dessa fusão de gerações. O SonoTWS traz a nostalgia dos anos noventa, a força do rap paulista, as vivências e a estética do graffiti. O Pumapjl traz o frescor da geração dele, as ideias e as rimas que pegam o público pelo coração, além das vivências no Rio de Janeiro. A gente junta tudo isso de forma natural. Essa é a base do projeto.

O sample é a espinha dorsal da dupla. O que um fragmento precisa ter para virar base de música?
O sample precisa trazer sentimento. Pode ser tristeza, raiva, felicidade ou nostalgia. Tem que bater direto.
Na produção, o beat precisa falar por si. O SonoTWS não rima, então se expressa pelos instrumentais. Ele sabe qual sample conversa com a velha guarda e qual conecta com a geração mais nova. Samplear é hip hop. A gente segue essa escola.

A relação entre beat e rima no som de vocês é muito orgânica. Como essa troca funciona na prática?
As ideias vêm dos dois lados. Enquanto o beat está sendo produzido, algumas coisas surgem. Às vezes aparece um tema, uma ideia de clipe ou de capa. Isso já aponta um caminho.
Também acontece do Pumapjl chegar com uma letra pronta ou com um tema pensado para um beat específico. Os dois processos funcionam e se complementam.

Vocês dialogam com gerações diferentes. Depois do show, o que vocês querem deixar em quem está ouvindo o Febre90’s pela primeira vez?
Queremos que fique o amor pela cultura. O respeito pelos quatro pilares do hip hop e por quem abriu caminho. Estamos representando uma rede de artistas, b-boys, DJs e grafiteiros. Levar isso para um festival desse tamanho tem peso. Quem chegar junto vai ser bem recebido.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR NINA MAIA

▶︎ COORDENADAS
Onde. Sábado 21/03 às 15h30 no Palco Perry’s. ★ O Cenário. O Palco Perry costuma ser a base oficial da euforia sintética e do drop programado. O Febre90’s invade essa arena no meio da tarde para instaurar o peso analógico e provar que o beatmaker sujo é o arquiteto original de qualquer catarse no asfalto. ★ O Veredito. O choque de realidade mais vital do festival. Um manifesto sonoro e brutalista entregando a vivência das ruas e a ética inegociável do boom bap no meio do autódromo.

▶︎ PRESTE ATENÇÃO
A Geografia do Grave. O rap exige compressão e proximidade. Ficar no fundo da arena é desperdiçar a engenharia de som da dupla. Rompa a multidão com inteligência e cole na área central entre as primeiras torres de delay. É o perímetro tático exato onde as frequências baixas da MPC esmagam a costela e a voz do pumapjl soa limpa e cortante. ★ A Etiqueta da Rua. A estética do show não pede coreografia ensaiada ou desespero visual para gerar engajamento. O clima exige apenas o pescoço marcando o tempo de forma contínua e o braço acompanhando a cadência do beat. A regra de ouro é absorver a crônica urbana e deixar a métrica implacável ditar a pulsação do seu corpo. ★ A Arquitetura da Sujeira. Observe a riqueza absurda do que parece rústico à primeira vista. O chiado do vinil e o timbre empoeirado da bateria não são falhas. Eles são ferramentas de textura calculadas milimetricamente pelo SonoTWS para transformar a imensidão do autódromo na sala de estar apertada de um apartamento no centro da capital paulista.

▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
★ O Mood. Uma roda de rima clandestina e magnética armada no epicentro da estrutura mais cara do entretenimento nacional. ★ A Armadura. Esqueça o provador de influenciador e a futilidade plástica. O boom bap não desfila; ele ocupa espaço. O tecido é estritamente utilitário para suportar o atrito do concreto. O que veste o público de verdade é a atitude, a espinha ereta, a postura de enfrentamento e a presença física de quem entende o peso histórico da cultura hip hop. Menos vitrine e mais rua. ★ O Drink. Cerveja servida em copo grande ou uma água mineral trincando para manter as cordas vocais prontas para o refrão. A energia crua do show exige um combustível direto, rápido e sem nenhum malabarismo de coquetelaria.

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