Nina Maia transforma vulnerabilidade em potência e testa o silêncio no meio do Lollapalooza

Nina Maia playlist para deepbeep no Lollapalooza

A cantora fala sobre treinamento vocal, independência artística e a construção de um pop urbano que usa silêncio e intensidade como ferramentas de composição.

O algoritmo treinou o ouvido para o choque rápido. A música de Nina Maia funciona em outro ritmo. A cantora trata a voz como instrumento físico e a composição como um processo de escuta paciente. Técnica e emoção caminham juntas. Improviso aparece apoiado em preparação rigorosa. No domingo, 22 de março, às 13h40, essa engenharia chega ao Palco Samsung Galaxy. Em um festival construído sobre estímulos constantes, o show aposta em contraste. Silêncio calculado, banda em peso e uma voz que sustenta tensão sem precisar correr. Na conversa com o deepbeep, Nina Maia fala sobre treinamento vocal, autonomia no circuito independente e o desafio de preservar profundidade artística em um ambiente cada vez mais acelerado. O papo vem acompanhado do pedido de playlist Frequências de Introspecção Urbana, uma seleção que revela as músicas que alimentam o pensamento da artista e ajudam a entender o silêncio que atravessa o som da cidade.

★ BÔNUS: Ao final da leitura, confira o Rider Técnico de Pista, com as coordenadas práticas para acompanhar o show no autódromo.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Nina, sua música carrega um estudo profundo que transparece em uma entrega muito natural. De que maneira o domínio técnico da voz e do instrumento funciona como ferramenta de liberdade quando você ocupa palcos de grandes dimensões e como garante que o rigor não abafe a intuição?
Tenho treinado bastante, focando em exercícios físicos e vocais para além dos ensaios com a banda e com a minha diretora de movimento. Voz é músculo e, quanto mais se treina, mais internalizados ficam os encaixes e as possibilidades. Eu gosto de improvisar bastante com a voz nos shows e deixar a emoção ditar as variações. A ideia é me preparar o suficiente para que a minha intuição flua sem receio, sustentada por uma base sólida.
Sei que vai ser uma carga emocional e física forte. Posso me preparar o máximo possível, mas é impossível prever a reação real no palco. Não existe garantia e essa é a beleza de trabalhar com arte, porque são vários saltos de fé.

O silêncio costuma desaparecer em festivais grandes. Suas canções trabalham exatamente nesse espaço de respiro. Como é o processo de projetar essa atmosfera delicada para a multidão de um festival como o Lollapalooza sem que a essência da sua música seja diluída pela escala?
Eu me apresento com um formato maior de banda desde 2021. Muito do que se tornou o álbum em estúdio nasceu dos arranjos desenhados no palco desde essa época. Como banda, estamos sempre atentos aos espaços e aos momentos de silêncio, porque eles fazem parte da minha identidade. No palco, esses respiros brilham muito mais por estarem em contraste com momentos de dinâmica forte e cheia.
O show tem pressão, principalmente esse que estamos preparando para o Lollapalooza. Divido a direção musical com Yann Dardenne e com o Pedro Lacerda, que é um dos melhores bateristas da minha geração e tem muita experiência em festivais. Estou muito animada com o que estamos construindo.

O deepbeep nasceu da inquietação com o achatamento cultural provocado pelos algoritmos. Como você protege o tempo de maturação das suas criações para que elas preservem profundidade em um mercado acelerado?
Hoje em dia a proteção do meu fluxo artístico não é algo que encaro como um problema constante. Até agora tudo o que fiz foi com total autonomia e liberdade criativa, de maneira muito independente e a poucas mãos.
Faço parte do Seloki Records, que é um selo independente, mas que funciona muito como um grupo de artistas e amigos colaborando nos projetos uns dos outros.
Ainda sinto que não entrei em uma escala maior de mercado e não tive que lidar com concessões externas. Agora, quando falamos de algoritmos, realmente é uma guerra diária. Parece que estamos à mercê de regras muito aleatórias e acertar o alcance é difícil na maioria das vezes. Não quero me achatar artisticamente, mas quero construir uma carreira sólida, circular, atingir mais pessoas e entrar no mercado. Penso em Caetano, Gal, Marina Sena e Rosalía. São artistas completos, inteligentes, que conseguem fazer música popular com personalidade. Eu amo música pop. Meu primeiro trabalho foi muito introspectivo. Agora estou começando a me sentir mais forte para dar passos maiores.

Muitas de suas canções nascem de um diálogo solitário com o piano e com o ensaio. Como uma sensação cotidiana ganha estrutura melódica e qual é o papel do imprevisto no momento de fechar uma composição?
Normalmente, quando começo uma canção, fico buscando por ela durante dias ou meses. Algumas demoram anos. O pontapé inicial pode ser uma sensação ou um estado emocional que quero traduzir, a maneira como uma batida me atinge ou uma sequência de acordes. Guardo essas sementes comigo e fico atenta, procurando as peças e as palavras que faltam.
A inspiração é fundamental. O que mais amo é escrever em estado de fluxo. Meu corpo arrepia e sinto que encontrei algo. Isso é a melhor coisa do mundo. Como ela não vem sempre, fico aberta e atenta. As respostas chegam das maneiras mais inesperadas e eu só fecho uma canção quando sinto que encontrei o caminho certo.

Sua presença artística evoca uma espécie de crônica emocional urbana. Que provocação você gostaria de deixar na memória de quem encontra seu show pela primeira vez?
Quero mostrar que existe muita força na vulnerabilidade e que esses estados podem caminhar juntos sem problema. As músicas passeiam por temas como dúvida, medo, intuição, deboche e amor. Elas foram feitas para que eu atravessasse esses sentimentos, me conhecesse melhor e me curasse quando necessário.
Estou me preparando para transmitir isso com o máximo de verdade possível. E também para me divertir com a banda. A gente se diverte muito tocando essas músicas. Espero repassar essa mesma energia para quem estiver assistindo.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR NINA MAIA

▶︎ COORDENADAS
Onde. Domingo 22/03 às 13h40 no Palco Samsung Galaxy. ★ O Cenário. O domingo pós-almoço é o momento em que a digestão disputa espaço com a vontade de circular pelo autódromo. Enquanto os palcos vizinhos apostam na euforia elétrica para acelerar o público, Nina Maia entra no Samsung Galaxy com uma estratégia muito mais letal. Ela usa o controle muscular da própria voz e o silêncio calculado para hipnotizar a arena e provar que a música pop contemporânea não precisa de pressa para ser imensa. ★ O Veredito. A aula de excelência vocal e inteligência de palco da tarde. A fenda perfeita para quem busca densidade urbana e um som construído com paciência antes de se entregar à maratona do entardecer.

▶︎ PRESTE ATENÇÃO
A Geografia da Dinâmica. O show alterna entre o respiro delicado e a pressão total da banda. Evite a dispersão do fundo do palco onde o vento leva os detalhes embora. Posicione o corpo entre a torre de delay e a house mix para garantir que o peso da bateria e as frequências da voz da Nina cheguem perfeitamente calibrados aos seus ouvidos. ★ A Força da Vulnerabilidade. Abandone a ideia preguiçosa de que som intimista significa fragilidade. A entrega da artista é um estudo impressionante de potência e domínio corporal. A etiqueta correta é manter o olhar cravado no palco e absorver as variações emocionais que ela conduz com maestria e uma naturalidade assustadora. ★ O Jogo de Contrastes. Repare em como a banda ocupa os vazios. A inteligência do arranjo reside nos segundos de suspensão e no choque imediato com a explosão dos instrumentos. É uma arquitetura de som pensada para engolir a claridade do dia e criar um clima de clube fechado em plena luz do sol.

▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
O Mood. Um clube de escuta cerebral e fervente montado no asfalto quente da capital paulista. ★ O Look. Alfaiataria vintage com caimento oversized sobreposta a uma regata canelada crua. Abandone as armações de plástico pesado e escolha lentes translúcidas em tons quentes com estrutura de metal finíssima para cortar o sol sem esconder o rosto. Nos pés, um utilitário de camurça ou couro fosco garantindo a tração de quem veio para absorver o impacto sonoro e não para correr. ★ O Drink. Um cold brew absurdamente denso ou um negroni seco e amargo. O som recusa a doçura óbvia e exige um paladar afiado com a mente em alerta máximo para capturar a engenharia de cada arranjo.

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Fotos por Elisa Mendes

Agradecimentos à Iza Costa da Assessoriza

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