A terraplana desacelera o Lollapalooza com distorção lenta

terraplana para a série deepbeep no Lollapalooza

A terraplana detalha a arquitetura do próprio ruído e explica como o contraste entre sussurros e guitarras densas muda a percepção física do som no meio da tarde de sexta.

O streaming treinou o ouvido para a pressa. Músicas precisam convencer em poucos segundos. A terraplana trabalha no tempo contrário. A banda constrói camadas de guitarra que crescem devagar, empilha microfonia e melodias etéreas até transformar o volume em matéria física. O impacto não vem de um refrão imediato, mas da acumulação. No dia 20 de março esse método chega ao Palco Samsung Galaxy no Lollapalooza. No meio de uma programação pensada para impacto rápido, o show funciona como um pequeno desvio de rota dentro do autódromo. Na conversa com o deepbeep, o grupo fala sobre testar limites físicos no estúdio, a engenharia do contraste entre sussurro e distorção e a decisão de fazer uma música que não busca velocidade, mas intensidade.

★ BÔNUS: Ao final do papo, veja o nosso Rider Técnico de Pista para curtir o show da terraplana com nossa curadoria tática com os detalhes invisíveis do show, o melhor ponto para sentir o volume da banda no corpo inteiro e a harmonização ideal para inaugurar os trabalhos em Interlagos.

Marcelo Nassif, sócio-editor

O som da terraplana trabalha com camadas e duração. Num festival de grande escala, como vocês organizam o tempo do show para que ele preserve essa densidade?
Cassi: Não só em festival grande, mas em qualquer show a gente sempre procura pensar na performance toda como algo coerente e dinâmico. Pra isso, nos ensaios a gente pensa nos setlists e como as músicas se conectam, uma após a outra, e testamos. Às vezes gravamos e ouvimos depois como tudo soa e mudamos algo se precisar. Isso tudo é feito tendo a questão de tempo de show como um parâmetro.

Há uma economia nas vozes que contrasta com a intensidade das guitarras. Como vocês chegaram a esse ponto em que o sussurro sustenta o mesmo peso físico da distorção?
Ste: Apesar disso ser uma característica do gênero em que estamos enquadrados, isso também aconteceu por conta da forma como cada um canta, do lugar em que cada um coloca sua voz e da vontade de fazer um som mais denso. Não foi um processo muito definido pra fazer tudo funcionar junto, mas acredito que isso funcione justamente pelo fato da voz mais suave e etérea não competir por espaço com o instrumental mais denso e pesado. Acaba que vira um contraste interessante e o timbre das vozes vira uma textura no meio de tudo.

As músicas de vocês constroem atmosfera antes de chegar ao impacto. O que essa escolha de construção lenta permite que uma estrutura imediata não permita?
Vini: A construção lenta não é uma escolha pensada de forma prévia, é algo que acaba acontecendo muitas vezes e só nos damos conta depois. Acho que esse tipo de construção permite que o ouvinte entre praticamente em um transe por conta da repetição, percebendo as mudanças sutis que acontecem, no fim é algo muito pessoal como cada pessoa recebe isso, mas com certeza essa atmosfera criada pela repetição vai se conectar com emoções e sensações diferentes de uma música com estrutura mais direta.

Pedais, saturação e microfonia não soam como ornamento, mas como parte da arquitetura da composição. Como uma ideia vira textura no processo de vocês?
Cassi: Muito disso vem de experimentações. Essa é uma das partes mais legais de fazer música, poder testar diferentes barulhos, riffs e qualquer outra ideia que a gente tenha durante o processo. Em geral, quando temos uma ideia inicial de música, esses detalhes de texturas nem sempre são claros no início. Eles vão surgindo à medida que a música começa a tomar forma já dentro do processo criativo da banda ou mesmo no estúdio quando estamos gravando, muitas vezes acontecem por acaso.

Quando o som termina e o silêncio reaparece, que tipo de sensação vocês esperam que permaneça para quem está ouvindo a banda pela primeira vez?
Ste: Pros shows a gente sempre espera que as pessoas fiquem impactadas positivamente, que se sintam envolvidas pelas distorções e melodias. Em geral, gostamos que o show seja bem alto pra que as pessoas literalmente sintam a música e que, de certa forma, seja também uma experiência sensorial.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA CURTIR O SHOW DO TERRAPLANA

▶︎ COORDENADAS
Onde. Sexta, 20/03, às 13h40 no Palco Samsung Galaxy. ★ O Cenário. O sol da tarde castiga o asfalto enquanto a maioria do line up aposta na euforia plástica. A terraplana entra para subverter a claridade com uma nuvem de guitarras densas e belíssimas, provando que o peso sonoro tem sua própria luz. ★ O Veredito. A catarse sonora mais sofisticada do dia. É o convite perfeito para desacelerar o corpo e deixar a parede de som limpar a mente antes que a histeria do festival tome conta do fim de semana.

▶︎ PRESTE ATENÇÃO
A Geografia do Ruído. A física do show exige inteligência tática. Ficar nas bordas é desperdiçar a engenharia de áudio primorosa da banda. Caminhe reto até o centro da pista e alinhe o corpo com a tenda da mesa de som. É o ponto de ouro geométrico onde as frequências graves te abraçam e a distorção bate no peito com perfeição imersiva. ★ A Estética da Contemplação. A excelência do grupo dispensa qualquer ginástica rítmica na plateia. A banda tem um magnetismo sutil que prende a atenção pela beleza bruta do volume. A etiqueta correta é mergulhar na massa sonora em silêncio e observar a arquitetura da microfonia ser erguida ao vivo. ★ O Milagre da Mixagem. Repare na matemática emocional entre os instrumentos e as vozes. O sussurro não tenta vencer a tempestade de pedais no grito. A melodia simplesmente flutua por cima da fricção com uma delicadeza absurda, criando uma textura que acalma e esmaga ao mesmo tempo.

▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
O Mood. Um banho de mar em câmera lenta no meio do asfalto derretido. ★ O Look. Roupa escura de algodão leve, tênis gasto para aguentar o chão duro e protetor auricular de silicone para equalizar as frequências e saborear a genialidade do impacto sonoro sem perder os detalhes. ★ O Drink. Água mineral estupidamente gelada ou uma cerveja muito lupulada. O som é uma viagem sensorial profunda e pede o corpo fresco com os sentidos totalmente despertos.

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Merch da terraplana na loja Balaclava Records
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Agradecemos à Francine Ramos pela conexão

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