
Fabiane Pereira desenvolveu um ouvido treinado para atravessar o excesso da música brasileira contemporânea e identificar onde ainda existe intenção artística.
A velocidade virou a métrica dominante da música. Singles chegam às plataformas em ritmo industrial e desaparecem quase na mesma velocidade. Fabiane Pereira prefere desacelerar o processo. Nem sempre é sobre descobrir o próximo nome. Às vezes é só perceber o que ainda merece atenção no meio do ruído. Ao longo dos anos, a jornalista foi construindo esse método de escuta atravessando rádio, televisão e entrevistas longas. Um trabalho que agora ganha nova etapa neste sábado, dia 7 de março, com a estreia da temporada 2026 do programa Vozes da Vez, na Novabrasil FM. Para acompanhar a conversa com o deepbeep, Fabiane abriu o próprio fone de ouvido e montou a playlist O Lado B da Escuta. Aproveitando o mês de março, ela selecionou vinte faixas cantadas por mulheres. Quase todas são grandes sucessos radiofônicos de décadas diferentes. São músicas que ela costuma revisitar de tempos em tempos para reorganizar o ouvido. A playlist e a conversa completa estão logo abaixo.
Lísias Paiva, editor-fundador
Você desenvolveu um faro muito particular para perceber quando um artista ainda está começando algo que pode crescer. O que costuma te chamar a atenção primeiro quando escuta alguém novo pela primeira vez? Existe um detalhe que sempre entrega que ali há algo além do momento?
Muitas coisas me chamam a atenção numa primeira escuta, mas talvez o que me faça insistir na audição seja uma sensação de que aquilo que ouço é a verdade do artista. Pode ser uma frase torta, uma gravação imperfeita, uma voz ainda em formação, um ruído fora do lugar, mas quando existe identidade, eu sinto. Nem sempre foi assim, mas hoje, depois de 20 anos trabalhando com música brasileira, eu realmente consigo sentir.
Existe algo na intenção que não se ensaia. Quando o artista não está tentando caber numa tendência, mas está tentando se entender, ali costuma haver futuro. Técnica se aprimora. Marketing se aprende. Mas identidade é uma construção íntima. E isso, quando aparece, entrega que há algo além do momento. Poderia citar vários exemplos, mas quem está lendo também sente o mesmo.
Hoje a música circula numa velocidade quase impossível de acompanhar. Em meio a tantos lançamentos, como você decide onde investir tempo de escuta? O que faz você ficar numa faixa enquanto outras passam?
Eu afirmo ser impossível de acompanhar. E não tem muito jeito, às vezes, vira unidunitê. Eu escuto muita coisa com curiosidade, mas escolho ter uma audição atenta com critério. Fico numa faixa quando ela me desloca ou pela letra, pelo arranjo, pela coragem de fazer diferente ou pela simplicidade que emociona. Eu gosto muito de uma frase do Nietzsche, filósofo alemão, que diz que a música é o mar e a palavra é mera embarcação.
O que me faz, na maioria das vezes, parar para ouvir com atenção algo é a melodia. Eu sou levada por melodias. Seja de um artista novo ou de um consagrado. Esse excesso de oferta não pode nos roubar a escuta profunda. Eu ainda acredito em ouvir disco inteiro, eu gosto de disco inteiro. Gosto de botar uma música no repeat, de deixar a canção crescer dentro de mim. O que me faz ficar é quando eu sinto que aquela música ou aquele artista quer dizer algo e não apenas performar números.
Você transita entre rádio, televisão, entrevistas longas e coluna escrita. Cada formato pede um ritmo diferente. A sua forma de ouvir muda conforme o meio ou a essência da sua escuta permanece a mesma?
O ritmo muda, mas a essência não. No rádio, eu busco mais a emoção imediata porque sou da escola onde o locutor é amigo do ouvinte. Já na TV, especialmente no Sem Censura, programa da TV Brasil do qual participo como debatedora, estou ali para ajudar os espectadores a entenderem a grandeza de um artista, então, até mesmo meu olhar comunica.
Na escrita, eu mergulho com mais calma. Mas a escuta é a mesma. Eu ouço para compreender, não para responder. E quando eu entendi isso, foi o pulo do gato. Porque tenho certeza de que o artista percebe isso. Quando ele sente que está sendo realmente escutado, a conversa muda de nível. Independentemente do formato, meu compromisso é com a profundidade e com a honestidade.
A cena carioca já foi descrita como nostálgica, resiliente, reinventada, subterrânea. Quando você anda pela cidade hoje, o que realmente te parece vivo e pulsando na música do Rio?
O Rio é minha paixão. Se existissem outras vidas e eu pudesse escolher onde nascer, escolheria o Rio todas as vezes porque não conheço nenhuma cidade mais musical que o Rio. O Rio continua sendo uma cidade de cruzamentos de gerações, de territórios, de linguagens, de gêneros musicais e de classes sociais. Um verdadeiro purgatório da beleza e do caos.
Vejo uma juventude que mistura samba com indie, funk com MPB, rap com música instrumental. Existe uma pulsação que não está necessariamente no mainstream, mas está nos palcos menores, nas rodas, nos festivais independentes. O Rio nunca foi uma coisa só e talvez a maior vitalidade da cidade seja justamente essa pluralidade. Mas respondendo à sua pergunta de maneira mais objetiva, o Rio hoje é uma grande roda de samba. Há inúmeras rodas de samba espalhadas pela cidade e isso é de uma beleza sem igual.
Depois de tantas conversas com artistas de diferentes gerações, o que ainda te surpreende numa entrevista? Existe algo que você ainda busca quando senta para ouvir alguém contar a própria história?
Ainda me surpreende a vulnerabilidade. Quando um artista tira a armadura e fala do medo, do fracasso, da dúvida, ali acontece algo raro. Foi assim recentemente quando entrevistei a Marina Lima. Aliás, ela é minha convidada de estreia da temporada 2026 do Vozes da Vez, programa que apresento na Novabrasil, que irá ao ar nesse sábado, às oito da manhã.
Eu sempre busco humanidade e também busco entender o que move aquela pessoa para além do palco. Porque carreira é construção pública, mas criação é território íntimo. E quando o artista consegue atravessar essa fronteira, a entrevista deixa de ser promoção e vira encontro. Estou sempre atrás dos encontros.
Acompanhe o trabalho de Fabiane Pereira
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Vozes da Vez com Fabiane Pereira na NovaBrasil FM
Papo de Música por Fabiane Pereira no YouTube
Fotos por Bispo
Agradecimentos a João Severo da Uhuuu! Music
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