
Entre o blues e a estética de garagem a banda Hurricanes explica como projeta o calor de um clube pequeno para uma multidão e por que apostar no erro humano é uma escolha de vanguarda.
O Lollapalooza é um ecossistema vasto que comporta desde a precisão digital do pop até a engenharia do rock moderno. Nesse cenário, o Hurricanes entra como o contraponto orgânico que equilibra a temperatura do festival. Escalados para o sábado (21/03), eles trazem uma proposta tátil e a eletricidade que não depende de backing tracks para acontecer. O som deles foi feito para suar e valoriza o chiado do amplificador e a dinâmica de quem toca olhando no olho. Nesta conversa para a série deepbeep no Lolla, a banda disseca como manter a pressão de um inferninho diante de uma multidão e por que o rock bem feito não é uma fantasia de época e sim uma linguagem viva sobre o agora. Para entender a textura, pedimos uma seleção que explicasse de onde vem esse calor. Dê o play.
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Lísias Paiva, editor-fundador
O som de vocês tem uma textura que ignora a limpeza excessiva das produções atuais. Quero saber de que maneira vocês protegem a sujeira da banda para que a energia do estúdio preserve a mesma verdade que a gente sente no palco. No estúdio a gente sempre grava tocando junto, olho no olho e deixando o som vazar de um instrumento pro outro. A gente nunca tenta limpar o som antes de entender o que ele quer ser. A sujeira que aparece, o chiado do amp, a microfonia no limite e a respiração entre uma frase e outra são essenciais. Muitas vezes é exatamente onde mora a verdade da música. Em vez de corrigir tudo depois, a gente preserva esses vazamentos e imperfeições porque é isso que faz a gravação soar realmente viva.
Muitas vezes a banda sugere a proximidade e o calor de um clube pequeno. Como é o processo de projetar essa atmosfera de pé no chão para a imensidão de um palco de festival sem que a essência do Hurricanes seja diluída pela distância? Mesmo num palco gigante a gente toca como se estivesse num lugar pequeno. A dinâmica é um ponto-chave e não é tudo no máximo o tempo todo. A gente cria momentos de silêncio, de tensão e de respiração que fazem o público se aproximar emocionalmente mesmo que esteja lá no fundo do festival. A luz, a postura e a forma como a gente se posiciona no palco tentam diminuir a distância. No fim não é o tamanho do espaço que define a sensação de proximidade, é a energia, a vibração e a verdade do som que fazem esse papel.
O deepbeep nasceu da inquietação com o achatamento da cultura pelos algoritmos que pedem músicas rápidas. Vocês defendem a construção de canções que exigem tempo para respirar dentro de um mercado que hoje prioriza o estímulo constante e o consumo imediato. A gente entende que o mundo hoje é rápido, mas a emoção humana continua tendo o mesmo ritmo de sempre. Algumas músicas pedem pressa, outras pedem calma e a gente respeita isso. Não compomos pensando em prender atenção por segundos, mas em construir uma jornada que valha a pena a permanência. Se a canção precisa de um minuto a mais pra chegar onde precisa, ela vai ter. É quase um gesto de resistência.
A música bebe diretamente da fonte do rock e do blues, mas soa como algo feito agora. Como vocês calibram essas referências históricas para que elas soem como um diálogo com o presente e não como um esforço para parecer algo que já passou?
O rock e o blues pra gente não são fantasias de época, são linguagens vivas. A gente não tenta soar como antigamente, mas usar nossas referências como vocabulário pra falar de agora, das nossas tensões, do nosso tempo e das nossas contradições. O timbre pode ter cheiro de poeira, mas o tema é sempre sobre o nosso tempo.
Além do prazer imediato do volume alto, qual é a principal provocação que vocês desejam imprimir na memória de quem assiste ao show de vocês hoje?
Mais do que impacto sonoro, a gente quer deixar uma sensação de verdade. Que a pessoa saia do show com a impressão de que viu algo humano, imperfeito, intenso e não só mais um show, mas uma troca real. Se alguém vai embora sentindo mais do que sentia quando chegou, já valeu a pena pra gente. O show é menos sobre impressionar e mais sobre acordar alguma coisa que já estava ali dentro esperando pra despertar.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR O HURRICANES
▶︎ COORDENADAS & CONFLITOS
★ Onde Sábado, 21/03. ★ O Cenário O sábado é o dia da lotação máxima e da disputa visual. Enquanto os palcos principais apostam em telões de led gigantescos e pirotecnia o Hurricanes aposta na eletricidade valvulada. ★ O Veredito É o show de limpeza de paladar. Se você estiver saturado de autotune e batida programada corra para o palco deles. É música feita por gente e com risco real de errar e isso faz toda a diferença.
▶︎ PRESTE ATENÇÃO
★ O Vazamento de Áudio A banda falou muito sobre deixar o som vazar. Repare como os instrumentos conversam entre si e formam uma massa sonora única. Não é cada um na sua raia. ★ A Dinâmica do Silêncio Ao contrário da maioria das bandas de festival que tocam no volume 11 o tempo todo por medo de perder o público o Hurricanes usa o silêncio. Preste atenção nos momentos de respiro pois é ali que eles ganham a plateia do fundo. ★ O Anti-Vintage Eles usam estética dos anos 70 mas a pegada é 2026. Não espere um cover de classic rock e sim urgência.
▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
★ O Mood Dive Bar a céu aberto. A sensação é de estar num inferninho na Augusta mas com grama sintética embaixo do pé. ★ O Look Jaqueta de couro se o calor permitir ou aquela camiseta branca básica que já viu dias melhores. O visual é effortless. ★ O Drink Cerveja no copo de plástico ou Whiskey cowboy. Nada de drink colorido com espuma. O som pede algo que desce rasgando.
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Agradecimentos ao Valtinho Fragoso e ForMusic pela conexão
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