Marcelo Beraldo

Marcelo Beraldo

Do silêncio do JAM à magnitude de Interlagos, Marcelo Beraldo explica a engenharia de conectar 100 mil pessoas e a tensão entre alimentar o algoritmo e educar a multidão.

Para inaugurar a série deepbeep no Lolla, conversamos com o homem que desenhou o lineup do Festival. Marcelo Beraldo opera em dois extremos de volume. Quem frequenta o JAM — seu projeto onde a alta gastronomia encontra a alta fidelidade sonora — sabe que ele é obcecado pelo detalhe, pelo silêncio e pela curadoria feita à mão. Hoje, ele aplica esse mesmo rigor em uma escala onde a margem de erro é zero: o Autódromo de Interlagos.

Como Diretor Artístico do Lollapalooza Brasil, seu papel vai muito além de contratar headliners. Ele é o arquiteto do clima que dominará São Paulo. Beraldo precisa equilibrar a dieta de um público viciado em hits rápidos com a responsabilidade de apresentar o novo, mantendo a chama da descoberta acesa em uma era dominada pela repetição do streaming. Nesta conversa que abre nossa cobertura especial, ele sai da torre de controle para explicar como transforma uma massa uniforme em um organismo vivo e por que, no final do dia, um festival de música tem mais a ver com uma missa do que com uma festa.

Para sintonizar essa frequência, fizemos um pedido especial antes de começar: não queremos o lineup. Queremos o que toca no fone do diretor quando ele precisa limpar o ouvido do barulho da indústria. O som que reseta o sistema e lembra por que trabalhamos com música.

BÔNUS: Ao final do papo, confira o Rider Técnico de Pista: nossa curadoria tática inspirada no rigor e no ecletismo do diretor.

Lísias Paiva, editor-fundador

Você sobe na torre de controle e vê um mar de gente que se comporta como um único organismo vivo. Depois de tantos anos observando essa massa, existe um momento em que você sente que a conexão aconteceu de verdade?
Existem muitos momentos, é um continuum… a magia está sempre acontecendo, mas gosto especialmente de andar pela multidão e analisar a reação das pessoas, vê-las sorrir, gargalhar, se abraçarem — muitas vezes pessoas que nem se conhecem. Gosto de contar quantas pessoas vejo chorando de alegria, de plenitude. É difícil não se emocionar, mesmo com muitos anos de experiência. É muito bonito e me considero extremamente sortudo de trabalhar com isso, pois antes de ser um profissional, eu já era um fã.

O algoritmo treinou o público a ficar na zona de conforto, consumindo apenas o que é familiar. O festival historicamente é o lugar da descoberta. O seu papel hoje é entregar o que o público já quer ou ter a coragem de bancar o risco de escalar artistas que a audiência precisa conhecer, mas ainda não sabe?
Acho que o fã atento e curioso tem no streaming uma ferramenta ilimitada para conhecer músicas novas, de qualquer parte do mundo, mas é nos festivais que a música ao vivo apresenta atrações que muitas vezes não viriam pelo algoritmo. Concordo! É um dos principais objetivos de um grande festival. Meu papel é equilibrar estas descobertas com grandes artistas que efetivamente são os maiores responsáveis pela venda de ingressos. Sem eles, não existe festival e, portanto, não haverá espaço para apresentarmos o novo.

Aqui está a sua contradição mais interessante. O JAM é sobre controle absoluto, silêncio e precisão. O Lolla é sobre imprevisto, volume e massa. O rigor de servir um jantar perfeito para duas pessoas te ensinou alguma coisa sobre como servir 300 mil pessoas no autódromo?
Ambos são experiências! No JAM, criei o slogan “alimenta até a alma” porque é muito mais do que apenas uma refeição. Tanto no restaurante quanto no festival, gosto de ficar na saída observando como as pessoas vão embora para suas casas. Meu trabalho está feito quando elas saem melhores do que entraram, então acho que há mais semelhanças do que diferenças entre o JAM e o Lolla, apesar de um estar baseado na gastronomia e outro na música ao vivo. O aprendizado em um retroalimenta o aprendizado no outro, é uma via de mão dupla.

Vivemos um tempo em que artistas explodem globalmente em meses online, mas muitas vezes não têm tempo de estrada para amadurecer o repertório. Como programador, você sente que o desafio hoje é dar palco para esse fenômeno rápido sem queimar a largada?
Temos que ter certeza de que os artistas que se apresentam no Lolla seguram, no mínimo, 60 minutos de apresentação ao vivo. Como a C3 [produtora global do festival] faz muitos festivais e está em constante contato com agentes e empresários, apesar de haver artistas recém-estourados no streaming, a gente já percebe o desempenho deles em shows. Normalmente um grande artista cresce ainda mais no palco, e a longevidade dele passará tanto por estes grandes shows quanto por manter um mindset de que nenhuma música, nenhum álbum, será tão bom quanto o próximo. Um artista com “A” maiúsculo tende a ser bastante produtivo no longo prazo.

Num futuro onde a realidade virtual promete simular tudo, o show ao vivo talvez seja a última fronteira da verdade porque o grave no peito e o suor não têm download. Você enxerga o festival se tornando um santuário de desconexão?
Não tenho dúvidas de que já é. Um festival com 100 mil pessoas por dia, todas vibrando em uníssono, sem nenhuma confusão, sem nenhuma briga, já é uma grande “missa”, onde — sem exageros — há uma conexão íntima e inexplicável com algo maior do que o próprio festival. Sim, uma desconexão de telas, mas definitivamente uma conexão com algo maior. Os fãs sentem isso, e a responsabilidade minha e do time do Lolla passa também por manter esta chama acesa, este legado.

RIDER TÉCNICO DE PISTA

NOTAS DA CURADORIA
Baseado no papo com Marcelo Beraldo e em sua playlist pessoal, mapeamos como navegar o festival com a mentalidade de quem desenhou o lineup.

A Hora da Descoberta: Beraldo citou que o festival é o “anti-algoritmo”. A dica tática é chegar às 13h30. É nesse horário ingrato que a curadoria esconde as pérolas que vão estourar daqui a dois anos. O palco alternativo é o laboratório de pesquisa do diretor.

O Som da “Missa”: O diretor é um audiófilo. A grade é para quem quer suor e contato visual, mas se você busca a fidelidade de estúdio que o Marcelo preza, procure o sweet spot. Em Interlagos, ele fica geralmente a 30 metros da house mix (a torre de som no meio da pista), centralizado. Ali você ouve a mixagem perfeita, como o técnico de som planejou.

Harmonização JAM x Lolla: A playlist dele vai de Beethoven a Jamie XX, passando por Sérgio Reis. O mood é ecletismo radical.

A Atitude: Desligue o celular durante o refrão. Como ele disse: o objetivo é a “conexão com algo maior”, não com o 4G.

O Drink: Saia do óbvio (cerveja lager). Procure o bar de drinks e peça algo que misture o clássico com o pop, como um Whisky Sour bem executado.

Acompanhe o trabalho de Marcelo Beraldo
Marcelo Beraldo no Instagram
Marcelo Beraldo no Linkedin
Lollapalooza Brasil no Instagram
JAM Restaurante no Instagram
C3 Presents no Instagram

.

Ouça a playlist de Marcelo Beraldo no seu player preferido


.

No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.

Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também