
Fefe Resende propõe trocar a métrica dos likes pela dos laços e explica como perder o medo do palco para encontrar a própria voz na internet.
O tema é a busca pela voz autêntica em tempos de ruído infinito. Fefe Resende não trabalha apenas com marcas, ela trabalha com o destravamento de quem está por trás delas. Em um mundo em que a comunicação tenta ser cada vez mais corporativa e pasteurizada pelo algoritmo, ela propõe o caminho inverso. A ideia é abraçar a zueira, mapear os próprios jeitinhos e entender que a internet não é um tribunal e sim uma festa caótica onde a gente precisa encontrar a nossa turma. Nesta conversa, a consultora e mentora fala sobre a pré-história da autopublicação, a importância da fofoca e da emoção para criar conexão real e por que a trilha sonora certa ajuda a definir quem somos.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Fefe, você se define como uma estrategista que ajuda marcas a encontrarem sua “voz autêntica”. O que, para você, é a alma de uma marca? E como é o seu processo para encontrar essa essência que muitas vezes nem o próprio fundador sabe articular?
Trabalho mais com pessoas do que com marcas — mesmo quando trabalho em empresas, é com as pessoas que fazem essas empresas que o trabalho se desenvolve. E tamos todas tão imersas em conteúdo, conteúdo, conteúdo… é taaaaanta propaganda e distração o tempo todo, que fica difícil mesmo não se confundir com essa zueira do lado de fora. Ao mesmo tempo, a gente como consumidora sabe que faz diferença conversar com quem tem linguagem autoral, trocar ideias com quem escuta de verdade (e não só querendo responder), encontrar gente com valores afins aos nossos próprios valores, conhecer trajetórias e expandir campo de visão a partir de pontos de vista diferentes dos nossos. Então, pra mim, comunicação pessoal começa com a gente mapeando na gente mesma quais características, forças, habilidades, visões de mundo e jeitinhos próprios a gente já tem! Pra então botar pra jogo.
Seu trabalho transita entre a estratégia e a direção criativa. Uma boa estratégia precisa de uma boa história para emocionar? E como você equilibra a análise de dados com a sensibilidade para construir uma narrativa que realmente se conecte com as pessoas?
Sempre acho que a gente aqui no BR é muito boa de fofoca, a gente naturalmente recheia nossas histórias de emoções — e é isso que conecta a gente, o que dá liga é como a gente SENTE as coisas todas! Então acredito que emoções, em comunicação, nem precisam ser centrais ou nomeadas, mas que têm que ser caminho: mais importante do que falar é, antes, pensar no que a gente gostaria que a interlocução sentisse quando a gente fala; e desenvolver a partir daí. A métrica que me interessa (trabalhando a comunicação pessoal de minhas clientes) é mais a dos laços do que a dos likes.
O deepbeep se inquieta com a comunicação pasteurizada dos algoritmos. No seu trabalho de posicionamento, como você ajuda uma marca a desenvolver uma voz única em um mar de referências e tendências que as redes sociais nos empurram o tempo todo?
É muitíssimo nova essa permissão que a gente tem de se autopublicar, tamos na pré-história desse compartilhamento da gente mesma, né? E por muuuuito mais tempo a gente só consumiu publicações de mídia tradicional, que comunica fatos; e de propaganda, que se comunica com imperativos (compre isso! clique aqui! não perca! etc). Me parece que a gente pega daí e começa a artificializar como fala, querendo parecer chique ou erudita, querendo mimetizar essa comunicação pré-autopublicações pra dar mais importância pra gente mesma 😐 Mas a graça tá exatamente em ser diferente de mídia tradicional e propaganda, né? A humanidade é sortida, a gente já é única! Então boto minhas clientes pra relaxar, e a energia que sobra (quando a gente relaxa, grazadeus) oriento pra encontrar características que sempre foram nossas, desde a infância, e que a gente carrega até agora em nossos interesses, nossas atividades de rotina, nossas escolhas de trabalho e de vida, nossos relacionamentos e, especialmente, nossas conversas. Aí a gente passa a treinar um jeito de escrever como fala, com exercícios de leitura em voz alta pra se reconhecer mais e mais, até reconquistar o próprio jeitinho.
A música tem o poder de criar uma identidade instantânea. Que papel a sonoridade e a trilha sonora de uma marca têm na construção de uma narrativa potente e de um posicionamento com alma?
Tudo, tudo, tudo comunica (mesmo quando a gente acha que tá quietinha, rs), e tudo pode reforçar identidade, consolidar reputação, facilitar o caminho das pessoas reconhecerem a gente, sentirem afinidade, quererem estar perto e trocar, colaborar, criar coisas junto. E muitas plataformas que a gente usa como canais de comunicação dão possibilidade da gente associar músicas às nossas identidades, então pode ser gostoso pensar nas nossas características e buscar essas mesmas características nas músicas que a gente sente que podem representar a gente, em forma de mensagens nas letras e também nas paisagens por onde o movimento do corpo pode se conduzir dançando 🙂 A gente é mais solar? Mais poética? Mais calma, mais agitada? Mais cabeçuda, mais leve, mais engraçada, mais discreta…??? Quanto mais a gente se bota verdadeiramente disponível no nosso melhor, mais quem tem tudo a ver se achega — então música pode também ser filtro.
Como mentora, você ajuda outros criadores a encontrarem seu caminho. Qual é o maior bloqueio que você observa nos criadores de hoje? E qual é o primeiro passo para começar a construir uma marca pessoal que seja, acima de tudo, verdadeira?
Tá todo mundo sentindo vergonha alheia e, por consequência, não querendo passar vergonha. Tem uma ideia maluca de que tamos todas em palquinhos e que tem uma grandessíssima audiência sentadinha esperando a gente se manifestar pra então apontar o dedo, reclamar, dar ruim de algum jeito. Gosto mais de pensar que tamos todas na pista, circulando, como numa festa enorme e caótica (só aqui no Brasil, essa “festa internética” encheria 1900 Maracanãs de gente!). Numa festa dessa a gente não dá conta de falar com todo mundo e, ainda que tentasse, o trabalho/o esforço seria de exaurir qualquer uma. Então me parece mais esperto falar mais de perto, com intimidade, com quem já tá aqui em volta da gente; e ser interessante como a gente seria em qualquer festa, e cultivar nossa panelinha com o jeito humano de se relacionar: puxando conversa, com abertura pra escutar de volta e trocar, com atenção a temas que fazem brilhar o nosso próprio olho, confiando que a gente já sabe como fazer na vida real — só falta adaptar pros meios novos digitais onde a gente vem circulando \o/ E se é gostoso de fazer acontecer, a gente mesma vai se empenhando em sustentar essa que pode sim ser uma comunicação pessoal criativa, positiva, cheia de possibilidades!
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Fotos por Flavia Valsani
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