Leoa

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Leoa explica como transformou a pesquisa de DJ em método de composição e por que recusa a cota regional que a indústria reserva para o Nordeste.

Leoa decidiu que não vai pedir licença para ser pop. Depois de anos à frente da ‘Luísa e os Alquimistas’ ela encara a carreira solo não como um recomeço, mas como uma tomada de poder. Movida por uma autonomia que ela define como força felina, a artista criou uma arquitetura sonora onde o Caribe e o Nordeste se encontram sem fronteiras e sem exotismo. O resultado é uma música que briga contra a preguiça da indústria de rotular tudo que vem de cima do mapa como regional. Nesta conversa ela desmonta essas armadilhas colonizadoras e explica como o inglês e o francês entram na mistura não por estética, mas por necessidade fonética. É uma leitura sobre coragem e sobre recusar o lugar decorativo que reservaram para ela.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Você encara essa fase como um renascimento e uma tomada de autonomia. O que essa força que você menciona te permite fazer hoje que a dinâmica anterior ou as amarras do mercado não permitiam?
Esse renascimento significa uma nova oportunidade que eu mesma estou me dando a de sonhar mais alto e com mais autonomia. Apesar de todos os desafios, me sinto com um novo gás para seguir produzindo música com essa força felina que a LEOA está me trazendo.

Seu som é um mapa complexo que mistura Nordeste, Caribe e música latina. Como a sua pesquisa como DJ influenciou essa arquitetura sonora e te ajudou a construir uma paisagem onde essas fronteiras deixam de existir?
Na verdade, essa pesquisa sobre as confluências entre a música nordestina, latina e caribenha norteou o conceito do meu primeiro álbum solo Original Malokera. O processo criativo também se deu a partir das minhas pesquisas como DJ. Fui percebendo possibilidades de mixagem, semelhanças entre ritmos e trazendo essas sonoridades para o meu cotidiano. Então na hora de escrever eu já estava com essa paisagem sonora muito bem estabelecida, sabe? Foi tudo bem espontâneo e fluido.

A indústria adora colocar artistas do Nordeste na cota do regional ou do exótico. Como você blinda o seu trabalho dessas armadilhas colonizadoras para garantir que ele seja lido como música pop contemporânea e não como souvenir turístico?
Muitas vezes me sinto deslocada desse contexto da indústria que quer colocar todo artista em uma caixinha. Sendo do Nordeste, a coisa fica ainda mais complicada porque eu exploro minhas raízes de uma maneira muito singular e o Brasil sempre empurra pessoas do Norte e Nordeste para o que chamam de regional. São armadilhas colonizadoras e preconceituosas. É preciso ter muita firmeza e coragem para trilhar esse caminho, mas é muito massa saber que não estou sozinha nessa. Eu consigo me ver como parte de um pop genuinamente brasileiro que está se espalhando de maneira orgânica e que tem um público fiel, caloroso e que se reconhece no que eu estou fazendo.

Você usa o inglês e o francês como ferramentas fonéticas no meio das composições. Como você calibra essa vontade de expandir as fronteiras do idioma com o desafio de manter a conexão imediata com o público brasileiro?
Costumo dizer que saber falar outras línguas me trouxe um leque de possibilidades maior para fazer rimas e poesias. A decisão de qual idioma usar vem muito da sonoridade, da fonética das palavras e também da vontade de ampliar as fronteiras do meu som. Mas às vezes eu mesma fico perdida pensando em como abordar isso sem perder de vista que quero me estabelecer no mercado nacional e ser compreendida pelos meus. Então nesses 10 anos compondo tenho usado o inglês e o francês de maneira mais pontual.

Sua estética visual e sonora comunica uma liberdade que muitas vezes incomoda o conservadorismo. De que maneira a recusa em se encaixar em normas de comportamento funciona como um filtro para atrair exatamente a comunidade que você quer por perto?
A liberdade de poder ser quem se é e experimentar sem amarras é algo de que eu não abro mão. Esse posicionamento dentro da arte é político e reforça esse senso de comunidade entre as pessoas que não estão dispostas a se encaixar em normas para viver. E meu público maravilhoso é a prova disso.

Se o projeto Leoa fosse um lugar físico, uma arquitetura ou uma paisagem onde ele estaria localizado e qual seria a vista da janela?
Leoa com certeza é uma casinha entre o mangue e o mar cercada por vegetação rasteira e iluminada pelo sol da manhã. A praia de Barra do Cunhaú no RN me vem muito à mente como memória afetiva de lar e também como possibilidade de destino.

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Fotos por Rayssa Lima

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