Sessa

Sessa lança Pequena Vertigem de Amor e explica como a paternidade e a influência do soul transformaram sua busca pelo silêncio em uma sonoridade noturna e grooveada.

Sessa faz uma música que pede licença antes de entrar, mas que ocupa o ambiente inteiro. Agora ele expande essa calmaria para terrenos mais noturnos com o recém-lançado Pequena Vertigem de Amor. O disco marca uma transformação profunda na carreira, já que depois de virar pai e assumir influências de Shuggie Otis e Tim Maia, ele trocou o violão central por sintetizadores e pianos elétricos.O resultado é uma sonoridade torta e aberta que serve de base para a turnê mundial que começa agora com apresentação única na Casa de Francisca. A seguir ele fala sobre a ideia de que complexidade não exige virtuosismo e conta como a limitação técnica da gravação em fita moldou sua nova fase.

Marcelo Nassif, sócio-editor

No seu trabalho a música parece funcionar menos como produto e mais como um modo de organizar o tempo e o corpo. O que para você faz uma canção realmente importar?
Eu acredito que uma canção tem o poder de condensar algo da sabedoria humana e da experiência de se estar vivo de uma maneira muito poderosa e comum. Na vida nós vivemos as coisas em primeiro plano, como a pessoa com quem vivemos altos e baixos, perdas e ganhos, emoções e paixões. A canção e a experiência artística no geral te permitem experimentar essas intensidades com uma distância e se reconhecer ali, se conectar com outras pessoas. Cantar também é simplesmente o jeito mais verdadeiro de se ouvir o coração de uma pessoa.

Há uma delicadeza constante na forma como você compõe, canta e escolhe o que não dizer. Em que momento essa economia virou parte consciente do seu jeito de criar?
Não saberia dizer o momento exato, mas acho que isso tem a ver com minhas primeiras paixões na música serem coisas de rock, rock de garagem, punk e soul music que são gêneros que muitas vezes prezam mais pela emoção e pela simplicidade do que pelo virtuosismo e pelas ornamentações excessivas. Essa música que marca uma pessoa na adolescência me parece ser muito importante. É como uma primeira paixão e de alguma forma aquilo vai sempre estar mandando um sinal ao longo da vida. No meu caso, que faço música, essa simplicidade sempre está aí. Eu também trabalho com algumas limitações no estúdio como prezar por gravar ao vivo, em fita, usando poucos canais. Depois faço alguns overdubs no computador e é isso.

Em um cenário musical marcado por aceleração e excesso, o seu processo parece apostar em outra cadência. O que no modo como você faz música hoje depende de escuta e não de resposta imediata?
Eu diria que tocar é acima de tudo ouvir. Tanto tocar com uma verdadeira presença quanto fazer um disco pra mim são jeitos de driblar um pouco esse tempo acelerado. Quando eu me sinto incrivelmente bem tocando música, eu sinto que eu estou ali. Não é minha cabeça falando pra eu tocar x ou y, é como se eu pulasse essa etapa da linguagem e fosse da sensação e da intuição direto para o instrumento sem dar nome pras coisas. E isso é estar presente. Com o disco eu tento criar uma experiência em que a pessoa possa sumir do mundo, nem que seja por 30 ou 40 minutos, e viajar para esse mundinho de sons e sentidos que eu criei.

Suas músicas costumam nascer de climas mais do que de estruturas prontas. Como uma ideia começa a se tornar canção no seu processo e o que te ajuda a reconhecer quando ela já disse o suficiente?
As canções surgem de vários jeitos. Acho que inclusive pro processo criativo é bom ter pontapés iniciais diferentes pra começar a coisa. Quando eu estou em modo de composição, eu leio bastante e fico grifando palavras de que eu gosto e ideias. Isso vai se acumulando e criando um universo de sentido próprio entre as coisas que eu estou vivendo e essas coisas que eu vou catando no mundo. E para além disso tem as ideias musicais mesmo que nascem de ficar experimentando com o instrumento no estúdio. Eu vou juntando essas coisas e experimentando até algo ressoar, até aparecer uma coisa que me faça seguir perseguindo e aí em algum momento passa a já ter cara de canção.

Quando alguém escuta suas músicas em meio ao próprio dia, que tipo de ajuste você imagina que isso possa provocar na forma como essa pessoa sente, pensa ou atravessa o tempo?
Caramba que responsabilidade influir em alguém assim. Olha, eu acho que quando o disco vai pro mundo, ele já não é mais tão meu. Cada pessoa vai tecer ali sua relação e suas interpretações e isso é o grande barato da música e da poesia, o sentido se explode. Mas só pra não fugir da pergunta eu ficaria feliz se a pessoa sentisse uma paz e um amor profundo.

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