
Clemente Tadeu nunca operou pelo centro. Fala sobre permanecer à margem, driblar o algoritmo e por que contestação ainda é método.
Clemente Tadeu não gira em torno do rock. Ele construiu um jeito de existir dentro dele. À frente de Inocentes e Plebe Rude, atravessou décadas mantendo uma lógica simples: não depender do centro para continuar relevante. Quando entrou, o rock já era marginal. O punk, mais ainda. E essa posição nunca mudou de verdade, só mudou quem estava olhando. “A gente não está no rock, a gente é o rock.” A frase não é provocação. É método. Sem usar parâmetros de mercado, ele construiu uma trajetória que hoje atravessa outra camada de tensão. Algoritmos, métricas e uma cultura que mede tudo por volume. Ainda assim, a resposta não é adaptação total. É desvio. Vinil, circuito alternativo, outras formas de circulação. Ao mesmo tempo, o incômodo segue o mesmo. Talvez mais visível. Para ele, o problema não é falta de assunto, é excesso de ruído. Um cenário em que o senso crítico se dilui e a música passa a refletir essa confusão. Na conversa com o deepbeep, Clemente Tadeu fala sobre permanência, contestação e por que nunca fez sentido seguir o caminho mais fácil. A playlist acompanha esse estado. Direta, urgente, uma seleção de clássicos com um aviso: “Essas eu queria ouvir hoje, amanhã serão outras.”
Lísias Paiva, sócio-editor
Poucos músicos estiveram tão presentes em duas bandas centrais do rock brasileiro, Inocentes e Plebe Rude. Ao transitar entre esses universos irmãos, mas distintos, o que em você se transforma? A energia criativa que você leva para cada uma é a mesma ou existe um Clemente diferente em cada palco?
Cada banda tem sua alma e procuro manter viva a alma de cada banda. Apesar de terem as mesmas influências, os resultados são bem diferentes, e o importante é manter isso vivo. O resto é diversão.
No seu programa, você virou um narrador da história do rock. Ao ouvir os relatos de tantos músicos, o que acabou descobrindo sobre a sua própria trajetória e sobre a resiliência de uma cena que, mesmo marginal, nunca deixou de existir?
Cada um tem uma trajetória única. Quando entrei para o mundo do rock, ele era marginal, estava à margem da cultura popular. Sempre toquei punk rock, que está à margem da cultura pop. Hoje o rock não é mais mainstream, mas mesmo quando era, eu estava à margem disso. Então, para mim, está tudo certo. Agora, para quem quer virar um mega pop star como era nas décadas passadas, realmente deve ser um problema, rsrsrs. A gente não está no rock, a gente é o rock.
O punk sempre celebrou urgência, imperfeição e o ‘faça você mesmo’. Como esse espírito pode se reinventar na cultura atual, tão mediada por tecnologia e métricas de engajamento?
Eu não uso os parâmetros do mercado desde que comecei a tocar, pois eles sempre se balizam pela quantidade e não pela qualidade artística. Infelizmente, dependemos dos algoritmos, mas a cena alternativa sempre se organizou fora desses parâmetros. Se fôssemos depender deles… Temos que continuar trabalhando e usando maneiras criativas para fugir disso. Estamos vendendo vinis e o resultado é ótimo.
Suas letras sempre foram um retrato direto da vida urbana e da política. Hoje, o que ainda te cutuca e te dá a urgência de escrever, seja uma canção de protesto, seja uma crônica do agora?
As coisas que me tocam são as mesmas. O problema é que agora tem um monte de gente que se orgulha de apoiar um monte de injustiças, como se tudo que é justo fosse “comunista”. Ou seja, as mídias sociais conseguiram destruir o senso crítico das pessoas. Na verdade, esse é o grande problema. São as mesmas pessoas que controlam essas plataformas que impõem um gosto musical único, dizendo que você é “livre para escolher”. É uma piada. A música é só reflexo desses tempos absurdos que vivemos.
Você esteve lá no começo da cena punk no Brasil. Para a nova geração que descobre o rock agora, qual é a principal lição que o punk ainda carrega como ferramenta de contestação do mundo?
O punk não é uma coisa só, são quase 50 anos de existência, ele é plural, tem vários estilos e vieses dentro do punk. A única coisa boa é que ele continua contestando um monte de coisa. O punk é uma ferramenta de contestação, apesar de várias bandas que saíram dessa cena hoje serem muito populares, como, por exemplo, o Bad Religion. Mas eu sou péssimo para dar conselhos. O importante é a pessoa mergulhar no estilo e tirar suas próprias conclusões.
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